domingo, 27 de julho de 2008

Joaninha


Saem os dois, descontraídos, da cafetaria das segunda-feiras.

- Ai, eu amo-te.
- Eu também, meu querido.
- Mas eu amo-te... como daqui à Lua.
- Qual Lua?
- A Vamos-ser-felizes-os-dois-numa-só-cama-ocupada-do-not-disturb.
- (Riso) ... e termos trigémeos travestis e alianças tatuadas no tornozelo?
- Hm hm. E lua de mel em Las Vegas.
- Ai o Elvis... não tens ciúmes?
- Quem tem ciúmes não ama.
- É. De qualquer forma, prefiro o James Dean.

(Silêncio).

- Joaninha?
- Lagarta.
- Praia?
- Dunas.
- Maçãs?
- Proibido.
- Livros.
- Vento, vento.

Ele acende o cigarro, ela bebe o resto do sumo de laranja. Ela fica séria, como se fosse a epifania instantânea que falasse por ela.

- Tu ... amas-me?

Ele beija-lhe a mão.

- O suficiente para não te deixar voar.

terça-feira, 15 de julho de 2008

O Eco da Moldura


Olá, eu sou o Rodrigo, tenho 32 anos e estou nesta cama indúctil por negligência de correspondência afectiva. Mas adoro médicos, gerações deprimidas e depressivas e novas formas de tomar os comprimidos sem me engasgar ou morrer. Entre Beethoven e Bach encontro-me no maior dilema de escolher a melhor performance dos meus medos e tempestades movediças como areias, areias que se infiltram secretamente, segredos de estado mais ou menos metade meu e meia fantasia desejada, que é bem maior do que a com que o sonho me galanteia.
Amo personagens que encontro nas fotografias desgraçadas e mendigas de um qualquer reconhecimento taciturno e romântico na sua mais bela ignorância. E débil, um aplauso débil como todos os romances que pisam esta terra e a que há-de vir (quando eu tiver 103 anos, se não morrer antes). Artifícios de lusco-fusco para melhor enfrascar a alma numa felicidade de poeta, numa lágrima vocífera vocal, na luz vitralizada de um pintor. No estranho acto de entrelaçar mãos e defeitos como se entrelaçam mães e os seus filhos perfeitos. Os amores, amores perfeitos e murchos e calor mortal que relembra a mortandade que é o parapeito da janela com a falta de serenatas, corações que pulsam não porque sabemos mas porque ouvimos. Madeixas de cabelo guardadas na cabeceira do amado no faz-de-conta de separador do livro das palavras nunca soltas, nunca livres – por isso felizes, sendo estas do contra às outras coisas todas e limitadas do mundo. Página 98, terceiro parágrafo a contar da direita.


Não quero morrer de mãos vazias enquanto souber que tenho ar entre as mãos. Don’t breath, just pray. Já não se pode ser louco nos dias que correm; corre-se o risco vertiginoso da metamorfose do diferente para o igual. O que equivale a uma solução benéfica só nos quadros com números e fórmulas mágicas sem magia, marcadas a giz vermelho como quem nos grita que perdemos a pele e a capacidade. Ou nos diz, de músculos contraídos, expressão nula aniquilada, de mansinho como um conselho de amigo: Vai à merda.


Um dia vou escrever sobre o Gonçalo (e há coisas que não são, definitivamente, para se compreenderem).

domingo, 13 de julho de 2008

Cansado

Sem tempo para nada, olho o espelho e vejo-te. Vejo aquele olhar terno, vejo aquele sorriso maroto, vejo aquele olhar entendedor.

Lembro-me do abraço que ficou, lembro-me de ti no tempo sem tempo.

Amei-te? Sim, é provável. Talvez à minha maneira mas amei-te.

"Quando agora digo: meu amor
já não se passa absolutamente nada
e no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração."


Adeus, Eugénio de Andrade

Mas as palavras estão gastas. As palavras estão gastas, os abraços estão cansados e até os nossos olhos estão entediados de tanto nos termos olhado.

Porém, ainda te olho com um certo carinho reprimido e uma melancolia, uma certa saudade visível.

Amanhã, serei outro. Amanhã, seremos artistas. Amanhã, lembraremos o que fomos, o que somos e o que vamos ser.

Amanhã, espero que te reconheças neste texto tão cansado mas tão honesto.

(Jorge) Filipe Ressurreição

sábado, 12 de julho de 2008

A mais bela história de amor/prostiputo


Hoje vou ceder o meu corpo de menino ao prazer alheio. Hoje vou ser acariciado, vão tocar a minha pele e, como um gato, esticarei a cabeça à mão que me quer fazer festas. Hoje sou eu a procurar o contacto. Hoje vou em busca de amor fingido. Hoje vou ser tocado, na pele. Hoje, por não mais de uma hora, serei tudo o que quiserem...

Hoje vou vender o meu corpo de menino ao prazer alheio. Um senhor gordo virá e uma nota lilás esticará. Hoje ele vai tocar a minha pele e fazer de mim o que quiser. Hoje, e só hoje, sofrerei com gosto, aproveitem. Por não menos de uma hora, serei muito mais que o que ele quiser. Hoje quero sofrer a bom sofrer, porra!

Hoje, esse senhor fará tudo bem: chegará, abusará, e não mais se preocupará. O senhor não me vai ligar a perguntar como estou. O senhor não vai responder se lhe perguntar alguma coisa. O senhor não vai dar notícias. O senhor tem pulso de ferro. O senhor manda mais que eu. Só o senhor é que manda. O senhor quer que seja só dele. O senhor aprisiona-me, mas anda à solta. O senhor comanda-me. O senhor faz-me sofrer, tenho feridas. O senhor quer lá saber. O senhor quer saber. O senhor não admite falhas. O senhor não gosta de acertar. Ah, como eu amo o senhor. Não, não, não. Não amo coisa nenhuma, eu só quero uma nota quando tudo isto acabar. O senhor tem semblante e carácter severo. Como é severo, o senhor! O senhor castiga-me:

"Deine Größe macht mich klein
du darfst mein Bestrafer sein
deine Größe macht ihn klein
du wirst meine Strafe sein"

___________________________________________

Estou no banho. Falta-me o ar. Tenho os olhos vermelho-choro. Falta-me o ar. Castigo-me. Falta-me o ar. Tento esfregar o que não pode ser lavado. Falta-me o ar! Estou sujo, sou sujo. Falta-me o ar... Desmaio, acordando, e vivo tudo de novo...



(sou lixo, não presto, não sirvo)


Prostituto Prostiputo.
citação: Bestrafe mich, Rammstein

domingo, 6 de julho de 2008

A praia do Mundo

Fui à praia para ver o teu raiar,

Sentir a brisa de um vento caloroso

Ver o raiar dos sorrisos veraneantes

Acreditar que ainda existem ondas solitárias,

Ver que ainda há o sol.

Desci do meu pedestal até à praia,

Sentir a areia quente por entre os dedos de mármore,

Cheirar aquela presença das dunas almofadas,

Apontar a arma da voz ao vazio da creditação,

Saber o que ainda é a música do verão.

Fui à praia, para ver se lá estavas,

Beber uma água frescamente arrefecida pela saudade

Saber que de ontem a amanhã, ainda lá estarás

E querer ser o primeiro a saber o que foi,

E a dizer-te o que tu hás-de mostrar ao Mundo.

Desci e fui até à praia, e soube quem eu era ali,

Pensei em ti, em nós, na infinitude

E hoje sou o brasileiro daquela praia modesta,

Porque dancei com as ondas de palavras que me surgiram,

E optei por escrever sobre quem eu amo,

Com humildade que me recreou hoje, no sol da minha vida.

Eduardo Coreixo



Passado não conta


Aviso-te pela penúltima vez. Vou deixar de existir para sempre e para Marte.

- Eu não vou chorar.

- Quando sufocares como mais amas, em câmara lenta para atenuar ou desafiar a dor, quando te doer a falta de passado e de rancor, eu não te vou confortar. Quando as prateleiras vazias dos teus livros sem sentido reclamarem pelas tuas mãos e estas ficarem doentes com a falta do que falar ou partir. Por vezes é o vício que sai de nós e o pior vem depois. Depois do depois, depois do para sempre. A tua caligrafia está de luto por fim e enterra-me livre de ser a causa, o efeito, o meio e o fim.

- Despenteia-me só mais uma vez.

- A tua maior loucura foi perderes a tua vida em lembranças enrugadas do que teríamos sido se tivéssemos sido. E dares ouvidos a quem te disse que nós éramos iguais e que só não dava porque nunca dá quando tudo tem tudo para ser perfeito. Vero ou não, não está cá, já não vive, já não há montes nem promessas por detrás deles, tu já não existes. Eu vou deixar de existir. Beija-me a pálpebra e atira-me da janela.


- Dorme bem. Eu nunca mais vou sonhar com rosas nem sorrir a sorrisos bonitos.