segunda-feira, 31 de março de 2008

Entre mim e Neruda


"Perdemos outra vez este crepúsculo.
Ninguém nos viu esta tarde de mãos dadas
Enquanto a noite azul caía sobre o mundo."

Achámos a sensação de tocar o céu
De sentir o desejo de uma árvore em ficar
Em tentar ter um pedaço de sol que conheces.

"Então onde estavas?
Entre qual gente?
Dizendo que palavras?"

Entre paredes de nuvens
Falavas para o alto e sorriste com a mão
Acenaste ao pássaro viajante pela neve.

"Eu te recordava com a alma encolhida
por essa tristeza que me reconheces"

Sempre me mostrei assim passageiro pela vida
Ausente do teu respirar, marcador do teu dedo apontador.

"Vi da minha janela
a festa do poente nos morros distantes (...)
Caiu o livro que sempre se toma no crepúsculo,
e como um cão ferido, tombou a meus pés minha capa"

Deixei de ser o herói da capa rota que planava pelo mar
Sou a tua sensação de musgo distante, quente pelo sol
hoje abro o livro onde tu o deixaste marcado
Abro-o e só te encontro a ti,por entre as linhas.

Eduardo Coreixo e Pablo Neruda

domingo, 30 de março de 2008

Boleia



A realidade pode ser bem mais bonita. Que tudo o que escrevo. A realidade é bem mais bonita, sem dúvida. Estar cansada não me faz infeliz, até porque a realidade é bonita.

Bate à porta, amanhã decido se ta abro. Eu seguro a porta, amanhã tu decides se agradeces. E estamos assim, realidades paralelas, onde procuro urgentemente notícias tuas e tu me procuras só para matar saudades, sem sequer quereres tropeçar na língua e apartar palavras; o que tu queres é outra realidade. Bem mais bonita, que já nos cansámos de tocar esta. Áspera e cheia de coisas mortas, como os tempos e os monólogos. Acredita, a realidade é bem mais bonita. Amanhã acordamos?
Amanhã vou-te falar, depois decides se respondes. Amanhã somos o que somos um para o outro, depois decidimos o que fazer com isso.

(Olá. Pode-me levar até ali mais próximo? - Andamos todos sem saber bem como ir lá dar, não é verdade? - Pois... pergunto-me todos os dias, e se cortarem as estradas antes de lá chegar?).

sexta-feira, 28 de março de 2008

À(h)



Flor da pele, que a idade não me desculpa e os sapatos- os sapatos, números abaixo. Já não sei que sonhe, que sonhos, que realidade, que despertador que não toca ou que não oiço. Pernas num extravaso de sensualidade que não é minha, mas que não roubei. Levo sempre emprestado, dizia-me o ladrão. Gatuno! Lição aprendida. Pontos de interrogação que ficam só bem noutras mãos, porque em mim, pontos finais. Quanto muito, vírgulas, mas sem dúvidas, pontos finais. Sardas, lentes, aparelhos nos dentes, cicatrizes. Câmaras de gás; não sei respirar sem suspiros. Abrir lento, boca- pêssego e uns olhos vazios na montra. Eu, sem mais. Não sou a culpada.


Um estro de nada ser e ser aplaudida. Só para fazer o favor, que seja, apesar do medo. Anti- medo do escuro. Entro dúctil e saio porcelânica. Não há grandes novidades, sem ser as que já se sabem. Sou anti qualquer coisa. Anti sem -número de coisas. E a coisa da vida interessa-me, porque coisa é tanta coisa. É a palavra mais sonhadora que há, mas isso já é outra coisa. E os sapatos - os sapatos, números abaixo.


Tenho cinco paredes e um medo enorme de sair da cama. O chão pode ser mar a qualquer momento- foi o que eu disse, eu não sei nadar, nem respirar sem suspiros. Os meus melhores conselhos vão para o cofre dos demónios antigos. Porque, meu querido, só o errar nos mantém vivos.


Então eu hoje visualizo : uma casa cheia, em vez de casa vazia. Copos partidos, em vez de cacos cheios. Garrafas, em vez de vazias, vazias. Uma declaração e um bouquet sem flores. Gosto de ti, sou caprichosa; quero que me tomes sem que perguntes pelos glícidos ou estricnina. Porque hoje sou um peixe fugu e visualizo, como se faz com as coisas : o veneno a nunca mais faltar, todos os dias, na hora da visita. Eu a repetir-me, que recomece o fim do mundo e que eu tenha sorte; mas desta vez, sentido, uma coisa com alma.
Sou uma coisa com alma. Sem mais. Declaro-me inocente de todos os males. Sou cúmplice. Mas tenho a alma comigo. Descalço-me, porque os sapatos - os sapatos nunca me serviram, mesmo.


quarta-feira, 26 de março de 2008

Inimigos


Tocam-se as folhas derrapantes no céu obscuro
Têm uma voz consonante pela sua permanência,
Como se fossem as únicas,
Como se as ideias fossem apenas e só suas.

As árvores choram a perda daqueles elementos protectores
São e foram a sua canção durante horas incessantes
Deram beijos pela sua vitalidade
E viram-se durante ouros perdidos no tempo.

Sorriram com a mesma alma, e trautearam ruídos
Alimentaram-se pelo seu inimigo (vento imune).
Foram derrotadas. Mas sorriem
A alma prossegue em uníssono, mas não o corpo;
São longas as lágrimas que lhes escorrem
Talvez pela chuva que as agrediu,
Pelo céu que lhes cobre a cor,
Quando tudo o que foram, foi apenas a sua intermitência
Imagens virtuais da seiva colhida.

Escolhem uma nuvem em comum, mas os inimigos são diferentes
Ambição, dor, mentira, raiva…
O vento volta e junta-as, mas estão de costas voltadas
Porque o tempo, ainda que curto, separou-as.
É hoje, e agora que voltam aos seus templos,
Perderam a sua cauda, e única ligação.
Hoje são apenas elementos verdes,
Perdidos numa relva verde,
Cobertos pela esverdeada inveja do que são.

Eduardo Coreixo

terça-feira, 25 de março de 2008

Vaivem


Tudo o que quero é um instante.
Só isso.
Pode ser?
Um instante de pura felicidade.
Eu e tu.
Sem mentiras, meias verdades ou mal entendidos.
Pode ser?
Tu, despido de mundos paralelos [por favor].
Sem música, sem média luz, sem perfume, sem velas.
Eu e tu a meio da noite na estrada que dá para a estação.
Roubas-me um beijo e eu digo-te que sempre soube que ia acontecer.
Um instante de perfeição.
Depois podes cavalgar para longe e deixar-me aqui cheia de ti.
Só mais um bocadinho até o rastro desaparecer e depois voltas outra vez?
Não voltas?
Á estrada que dá para a estação? A meio da noite? Sempre nos procurámos ai.
Quando os outros nos rejeitavam.
Quando fazia frio,
Quando reinava o silêncio
E quando se erguiam muros á nossa volta.
Mas era perfeito.
E se eu te conseguisse dizer o que quero com palavras bonitas!
Preciso que entendas que é só quando neva no coração e as palavras estão carcomidas pela rotina.
Que as tuas mãos só fazem sentido quando o meu corpo já perdeu batalhas.
E depois cada um segue o seu caminho.
Até ao próximo instante.

Livro de Reclamações



- Não sou ninguém.
- Gostas da parede? Vai lá contra ela e conta-me a sensação.
- Pára de ser assim. Sinto-me tão mal quando não posso fazer as coisas que mais gosto.
- Que são?
- Cheirar-te de manhã, vinda directa da terra dos sonhos e da água do chuveiro. Apertar-te que quase te esgane a vontade de ser mais e melhor. Saborear cada riso teu - que o nervoso é o meu predilecto- e trabalhar no canil mais perto da tua casa, para reparares da tua janela eh lá que ele também tem coração! e que os cães são amores que nos unem pelas estradas perdidas (uma espécie de serenata sem noção alguma do ritmo). Mirar o véu da montra, imaginar os convites do fel, contar os trocos todos e depois sorrir muito por saber que nem nunca pararás numa loja como esta, porque tens alergia a corações dengosos.
- E também porque nunca entram em saldos.
- Exacto. Também gostaria de um dia aproveitar a rua ventosa para atar fogo aos meus medos... E tu, já sabes o que queres?

- O que eu quero? Menos dores de cabeça, alguém que goste de ser alguém e que me queira como boa companhia.
- Sabes que mais? No meu sonho eras tão mais e melhor.
- Pede o Livro de Reclamações.
- Só se depois me beijares e me prometeres alguma coisa em que eu acredite.

domingo, 23 de março de 2008

Sei lá

Acordo, chego a casa, vejo TV, estudo, leio, treino. Durmo. Sonho. Para mim é tudo o mesmo. A única coisa que me alegra é saber que não tenho coragem de fugir. Alegra-me a, entre aspas, cobardia. Passo vinte minutos a ouvir o barulho da melódica música que tenho no leitor. E passo vinte minutos a olhar para o cursor a piscar. Vejo-me nele, alguém intermitente, ora está, ora não está. Ora ama, ora não ama. Ver o cursor distrai-me, sinto-me acompanhado. Tenho saído muitas vezes da minha cabeça, quando me sento no sofá da marquise. Esqueço-me de coisas que tenho para fazer. Passo o tempo com dificuldade. As pessoas evitam-me e eu finjo-me atarefado. Não tenho vontade de me relacionar, excepto com alguns amigos. Passar o tempo é um calvário. Inutilizo o meu tempo com coisas inúteis que me fazem gastar tempo. E ouço musica...


Não tenho sono mas queria dormir três ou quatro anos e ser sonâmbulo. "O tempo passa a correr", reconforta-me a frase. Não consigo ter uma felicidade constante (voltaste).


Não consigo perceber...

D'Antes


A poesia morreu-me nas mãos.
Agora dói-me que vê-la - só de longe,
Que ela não cega esteja e eu não lhe diga (não o posso, não posso, não...)
As frases do amanhã que era o hoje
E que já não é, tropeços vãos...
Mas ainda ressoa a frase muito antiga
Num sussurro de entre mãos

"Não te lembras? Somos irmãos..."

"Tanto te faz que peques ou supliques,
Que me queiras ter, sã ou doente,
ou fria e quente, ou trémula e escura.
Foste tu a quem um dia disse,
Eu quero que fiques...
Mas era tanta a ternura
Que hoje o amor perdura,
Mas o amanhã segue em frente...
E o eterno, esse nunca para sempre."


Suicídio pela certeza, ninguém mal lhe poderia querer.
E eu tanto a amei e ela tanto me quis amar.
Ao pecar, achei-me dona e senhora
E perdi-me por achar
Que algum dia a ia encontrar, como quem a ia ter
Toda oferecida , escancarada, nos meus dedos
Em rodopios matadoiros, fatigantes...


"- Não te lembras? Fomos amantes."

- Mas isso foi d'antes. Muito antes.

terça-feira, 18 de março de 2008

Reverter


Gosto de olhar para as paredes vazias o meu quarto e saber que fui eu que as decorei assim.
Tenho paixão pelo vazio, isso sim! Faz-me sentir humano, espécie de alma a pairar pela cozinha, apenas para levitar, não para assimilar as mudanças do próprio corpo!
Sei sim, sim sei, que se perderam aquelas noções de vazio, que as noções de vazio foram perdidas,
talvez porque, porque talvez ele seja subestimado pela ironia, porque a ironia o subestima.

Gosto de me ver à parede, porque ela reflecte a minha brancura (vazio), simplesmente deleita-me.

Gosto de olhar para estas letras, aqui do meu quarto, e pensar em ti, em ti pensar. Parece impossível, mas o tempo já é tanto, tanto o tempo é, que te recordo a cada simples letra. Gosto sempre de te ler.

Toque toque (e este não dá para trocar as palavras porque fica igual...), toca aqui e sente o peito inflamado pela alma, alma inflamada pelo peito.

Hoje sou parede branca pela sofreguidão, a sofreguidão é parede branca contigo inscrita.

Eduardo Coreixo

segunda-feira, 17 de março de 2008

Vontade de sair!


Eu gostava de querer. A sério que gostava!
Gostava de dizer "hoje vou ser eu",
Ou então, sei lá, querer o céu, por saber que me era devido.
A confiança, ai que milagre seria,
Qual poema cantado, qual arma de serpentina,
A decisão, isso sim, a minha felicidade diária.
Gostava de gritar ao ar que queria ser feliz,
Porque embora inocência, será igual ao comum mortal
Homem que desaba pela protuberância,
Sou eu aquele que quer saber, mas que acaba deficiente,
Anjo de uma só asa, cadeira de duas pernas
Forma sem quadratura.
Gostava de querer. A sério que gostava, mas agora não posso
Porque os dias são curtos e a alma é pequena (como dizia o poeta)
Mas prometo-vos, um dia serei aquele que admiram
Não hoje, não amanhã, talvez uma infinidade depois
Porque reza a hora que devo sair da minha escrita,
Prega a minha pequenez que volte à cama do meu coração.

Eduardo Coreixo

Porque viemos do mesmo sitio



Conheci alguém que está em apuros. Arrastada á força pelos caminhos da incerteza e da solidão, vagueia sem saber que rumo tomar. Conduzida por vontade alheia, não sabe em que mundo vive. Tem olhos doces-de-mel, vestígio único de tudo o que acontece dentro dela. Perdeu-se de a(A)lguém- Como? Como? Como?."É urgente entender o rumo que a vida nos faz tomar". Temos, de facto, o poder de escolher? Temos? Ela só queria que a sua busca terminasse o mais rápido possivel. Ela desejava ardentemente um corpo a que pudesse chamar casa. Em algum momento perdeu-se desse corpo. Dela mesma. Perguntou-me se há maior solidão do que aquela que sentimos quando estamos rodeados por uma multidão imensa. Respondi-lhe que não. Então, agarrou numa folha de papel e fez uma lista de todas as coisas que precisava para não se sentir tão só. Tomei o papel nas minha mãos e li: calor, sinceridade, música, um olhar negro e descaradamente penetrante (resquício de uma memória perdida de um passado longínquo), abraços- instantes divinos de cumplicidade e uma mão para agarrar quando o termómetro do coração chegar aos tantos negativos... Foi então e só então, que percebi que buscávamos as mesmas coisas. Estava tão perdida como ela e nunca me tinha dado conta. Dei-lhe a mão e começámos a vaguear juntas.

- Só tenho pena de não te ter podido ajudar.
- Estás a ajudar.


(Á minha irmã que nunca deixou de me pedir a mão, mesmo quando sabia que eu não podia fazer nada)

domingo, 16 de março de 2008

Mais do Mesmo


Estamos parados. Somos estátuas falsas e nem sabemos o que somos. Não nos reconhecemos, temos miopia e astigmatismo; não queremos saber. Nem tocar nos é permitido, jamais, ou mais não, nunca mais. Somos farsas construídas nos sonhos de outrem. Existe um silêncio que perturba a nossa relação com o mundo e então falamos demais para esconder o medo do dilúvio. Quando começar, nunca mais acaba. Não sabemos o que somos.


Eu gostava, quando era pequena. De pipocas e cheiros de cinema. Eu gostava, mas já não consigo. Quando era pequena, tinha a desculpa. Hoje tenho a sensação só de tempo perdido e letras trocadas. Promessas que são favores que eu não posso retribuir, sem pena de asas partidas. Quando nos julgamos anjos, a morte está tão perto e as flores estão secas demais para se guardarem em livros. Eu sei que poderia vasculhar bem mais fundo, mas nunca sei o que ainda tenho mais para encontrar. Comigo, a surpresa nunca acaba, a viagem nunca é boa, sem ser a viagem, em si.

Quando as minhas mãos se curarem, hei-de fazer um altar de desenhos- rabiscos e fotografias mentais. Quando possuir algum tipo de talento, hei-de escrever. E quando eu for eu, tenho a certeza que as minhas pernas vão querer andar. Certeza errónea, de quem esborrachou os dedos todos dos pés e não sabe dançar. Por ora, chama por mim cegamente e assiste ao meu desespero de tetraplégica escancarada no chão. De recém- nascida com tendência a ataques cardíacos e não só. Só aquilo que nunca fui, sem saber o que alguma vez já fui.

Dizes-me: somos o que somos, um com o outro; fora disso, não existimos, somos estátuas falsas. Pim- pam- pum, cada bala mata um. Macaquinho de imitação e rituais a que fui obrigada. Daí os ódios, daí as unhas partidas, as anorexias de afectos e bulimias de ti. Eu bem te avisei que a praia nunca mais teria a mesma magia. Amores insurrectos, cefaleias agudas. Terminais.

Antigo


Foi hoje que perdi.Aliás, perdi toda aquela parvoice já faz tempo, mas a maldade nem sempre se vai embora, sabes?
Acho que foi porque ali naquele canto chovia, e a memória começou a falhar...Sabes que foi há um mês que te perdi também?Não foi pela maldade,não não foi, foi pela mesquinhece de uma vida que apanha com alguidares o choro que te escorria pelo rosto.

Ainda acho que poderias ter feito algo.Mas pronto, hoje estás, estamos aqui.

Apoia-te aqui na minha imaginação, segura-te nos meus ombros. Vamos partir.

Eduardo Coreixo

sábado, 15 de março de 2008

Mais Perto





Hoje não quero ler.
Não me basta viver a vida de ninguém. Hoje quero ser e sentir-me eu.
E o que tenho para partilhar contigo é um sentimento que me nasce nas entranhas mais profundas.
E que cresce-
mas não amadurece; tem a excitação mal controlada de uma criança para quem o mundo não é mais do que um gigantesco mar de possibilidades que precisam de ser tocadas com os dedos.
Foi o que de mais valioso este dia me deu e agora preciso que sejas parte.
Um sentimento que nasce em mim mas que cresce e explode para fora.
Para o mundo.
Para ti.
E é querer estar em todo o lado ao mesmo tempo;
Ver tudo, sentir, tudo, cheirar tudo, saborear tudo, ouvir tudo.
O que tenho para te dar é energia em estado puro, imoldada, intocável.
Sinto o mundo inteiro em mim.
Sinto a sua força toda concentrada no meu umbigo, no meu centro.
Sinto-me uma e todas.
Força viva, activa, interventiva.
Hoje sei que posso mudar o mundo.
Só hoje.

Ataraxia


Entremeando pelos pólos opostos de uma vida
Penso na morte como rival de uma escola antiga,
No amor que se recria à minha imagem,
Firmo como certeza a calma de um olhar pasmado no presente.
Preguiçosamente me levanto (a raiar o sol, terno convite)
E espero o dia que se mostra rápido a acordar,
(e tu tão longe, coisa de família, que os laços não deixam quebrar)
Mando uma mensagem de amor a ela, a minha razão
E lá penso em ti, como possas estar na tua felicidade londrina,
Juro, juro que penso.
Passam as horas rápidas muito lentamente, até que seja outra vez cama,
Quando fico prostrado falo para o meu caderno, derradeiro ouvinte
Sim, porque a calma também implica a consciência do estar,
E falo de novo com ela, a minha sensação de amor.
Também há dias de entremeando, no meio dos dias opostos;
Sou a opção de relaxamento ou de adrenalina,
Qual viciado em sensações, mostro-te quem sou de verdade.
Tu estás por aí longe, será que tens calma?
Mais um dia passou, e eu e tu falámos sobre ela, aquela lá ao longe
Sim, não a conheces como eu, mas conheces-me
Sabes a dor que ficou pela saudade. É família, certo?
Hoje com serenidade vejo-te e entendo-te,
Porque em dias como este em que o sol nasce e a lua cresce,
A alma fica cheia por apenas estar vivo, e ser entremeando.


Eduardo Coreixo

Untitled





Foda-se, eu não deveria nunca ter pago por tu não acreditares em Deus. À falta de cinzas, arde-te todo que eu prometo que desta vez aplaudo no final do espectáculo.


Incrível a quantidade de fantasmas que nos moram no roupeiro ou na caixa de e-mails. Incríveis e não tão incríveis assim, as vezes que esbarramos neles e procuramos desculpas e elas não lá estão, um qualquer aviso de férias, Por motivos de força maior, não nos encontramos disponíveis. Tente mais tarde, E não há forças maiores que expliquem.



Eu queria voltar às ruas de eu e tu e mais ninguém no mundo, aos palcos improvisados, às coreografias circenses, à estrela que ia ser minha, Vénus ou Marte, conforme os sexos; às danças em que tu eras eu e eu não existia; aos ciúmes e cubos de gelo, para atenuar a falta de lucidez; aos relógios sem pilha e à comida indiana com sabor a mar; aos terraços com pombas brancas, risos fracos porque tínhamos medo; praias desertas e alguém com sotaque do Norte, a fazer-nos as delícias da noite; pessoas que pensamos perdidas e se encontram e se perdem, mas ficamos felizes; banheiras encharcadas de suor, risos que acordavam as testemunhas do que não foi só sonho; varandas nossas como amantes acampados, corredores com mendigos que faziam de padres e nos davam livre-passe para as núpcias; eu a falar, mas a querer mais que nunca, ouvir; à igreja que me puxou por um déjà - vu cinematográfico e acabou por me fazer chorar esta noite; tu a pedires-me, já mais tarde, que te ajudasse a acreditar em Deus.



Eu queria apagar. O salão de jogos com dois cadáveres descobertos, sem saberem bem se parar o tempo ou morrerem de vez, para dar vez aos vivos. Posição inerte e calada, com terror das palavras, porque eu olho para ti e amanhã a esta hora, somos sombras disto, um postal bonito para os turistas. O ouvir a mesma música com que tudo começou e chorar por motivos diferentes, desta vez. Os nomes são uma coisa que não se deveria nunca repetir na nossa vida; chega sempre um momento que nem nós já sabemos a quem nos estamos a referir. Chorar por motivos diferentes desta vez, apesar do mesmo nome. A viagem de volta, a volta, escadas imortais. "Foda-se, voltou, Quem? A tal."

Lembras-te de eu ter alucinado naquela manhã, noite, semana? Hoje voltei e não me arrependo, nunca, nunca nos arrependemos, pelo menos isso. Mas se há toque que odeio é o da realidade. Queria um sonho menos cruel, onde por momentos tu fosses eu e eu existisse. Onde parasse de mentir, tu voltasses a dizer-me quantas coisas odeias em mim e eu tivesse a palavra amor quase, quase a expelir-se da minha boca.



Eu paguei por não acreditares em Deus e só hoje me dou conta que nunca te perdoei por isso, (trabalho para férias, ler a Bíblia uma única santa vez). Mais um viajante que continua tão perto - vem ter comigo - e eu não vou. Às páginas tantas, o mundo todo é um eterno jogo do telefone estragado.


Não te dês tanta importância. Clap Clap.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Deficiências


Fiquei com o lábio inchado, aqui mesmo no canto não vês? Está negro como a cal da parede, e sei que não faz sentido, mas lembrei-me de ti quando levei o murro mesmo eu cheio!
(Mas não é nada de errado, é apenas porque me fez sentir algo, como tu fazes quando me beijas, só que este foi de dor!!)
Lamentar para quê? Nem a dualidade de dor foi justa, porque em vez de ficar com o lábio inchado por completo, apenas este canto ficou esmurrado!Mas que coisa, hã?Achas que fico desfigurado?
Ás vezes penso que mereço estas coisas, mas cá por dentro deixo de ter a sensação do que é correcto, porque o cérebro (que já não é muito...), abana, e fica desregulado...
Fiquei com o lábio inchado, aqui mesmo no canto, não vês? Foi por ti, porque decidi enfrentar os meus demónios, quando disseste as palavras avassaladoras, mas não penses que só eu fiquei assim...Destrui-os, por isso apenas uma negra, não está nada mal! Fui-me a eles, coitados, já gritavam que só queriam falar...já viste? Fazemos malabarismos para saber a verdade, e no fim de contas estamos com ela na mão, mas a escapar pela unha mal cortada!

Desesperamos, fugimos porque somos cobardes
Porque vemos a vida avassaladoramente morta,
Neste vento, qual tentação que nos empurra
Assim passamos por cima de nós,
E choramos o que deixamos para trás.

Ficamos assim.

Eduardo Coreixo

Dual


Tornei-te rainha do meu coração,
sempre o serás...
Destronei-te do meu coração,
jamais o terás.
Levei-te sempre
no meu pensamento.
Lavei-te para sempre
do meu pensamento.
Embora não me ames,
irei atrás de ti até ao fim.
Vai-te embora,
não quero saber de ti.
Fui chicoteado, mesmo sendo teu amigo.
Estou chateado contigo.
É em ti, que meu espírito
se embebeda, dorme e come.
Sai! Contigo não tenho alma,
meu espírito é unhas (d)e fome.
Estou cansado de "fugir" de ti.
Estou cansado de fingir que gosto de ti.
Faço tudo por ti.
Passo por cima de ti.
Quero-te para sempre,
mas nunca te terei...
Sempre me tiveste,
e nunca me quiseste.



Amo-te
Odeio-te

quinta-feira, 13 de março de 2008

Olá a todos,

Juro que defendo que deviamos ter nascido com canetas nos dedos como uma extensão natural da mão e dispensar psicólogos, psiquiatras e terapeutas. Porque, para mim, escrever é isso: resolver problemas, exorcizar demónios e tornar a existência leve, bem levezinha. Por isso (finalmente) aceitei o convite do Eduardo.

Por isso e para pedir desculpa a todas as palavras que lutam ate á exaustão na minha boca para sairem mas que eu não permito que cheguem a ver a luz do dia.
É isso.
Porque há coisas que têm de ser arrancadas a ferros.


Ciocarlia, muito prazer.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Adições

Caros escritores e escritoras, caros leitores e leitoras

Tenho hoje o enorme prazer de vos dizer que temos connosco uma nova colaboradora deste Blog, e não é apenas uma pessoa qualquer, é uma pessoa que desde sempre que entrei para a faculdade me foi muito próxima, uma pessoa que sempre me ajudou imenso...Contudo, esta pessoa, a cara Ciocarlia, é além de uma pessoa pura, uma óptima escritora, e será sem dúvida uma óptima "compra" para o nosso cantinho.
Sei que não será necessário pedir que a recebam, porque não fazem vocês senão outra coisa; no entanto peço isso sim atenção, atenção redobrada, porque aqui ninguém é mais importante que alguém, porque para mim, e vocês sabem, todos são alguém para mim, todos vós, meus talentosos escritores, amigos, colegas, e até afilhado e afilhada...
Teremos sensibilidade, e uma pureza no seu estado mais puro. Cláudia, uma palavra para ti, és capaz de gostar bastante da minha nova "descoberta", que a muito custo lá decidiu aceitar o meu convite de aqui escrever.
O meu obrigado a todos os escritores deste recanto do mundo.
Espero ter-vos sempre aqui, desde sempre, e para sempre, sem olhar para o que ficou para trás.
Bem-vinda amiga, irmã, poetisa, ouvido amigo e conselheira.

P.S.: Tânia, estou feliz como sabes, por ainda estarmos por aqui...e sinceramente é pela Ciocarlia, que nas alturas dificeis, eu soube como reagir. Amo-te.

Eduardo Coreixo

terça-feira, 11 de março de 2008

Aequum est.


Temos um cenário preparado para a cena do desmancho. Temos tiques parvos, neurastenias em mãos, cigarros desnecessários, birrinhas do Vou-te irritar para que me ames e farpas nos dedos mindinhos. Temos muita coisa que não faz falta; ressacamos. Faz-nos comichão a felicidade, disparamos defeitos ao ar e as balas perdem-se sempre nos corpos. Vaiamos actores mal pagos, com o sonho de serem engenheiros. Caraças para todos os gostos, conversas sem nexo que explicam o mundo em que tropeçamos. Tropeçamos em dois amantes que não se amam, nem debaixo de água. (Há cursos no Japão que ensinam a dizer Amo-te e eu nem para Leiria consigo ir). Está tempo de chuva e o breu é imenso.


- O teu coração é um guarda- chuva estilhaçado. Deixa-o aí aos cantos, como as meninas em hora de ponta e de tusa.

- Preferia d(o)á- lo a ti, de bandeja ou o quer que seja.

- Ui, anjo de guerra, tão doce que até enoja. Pôe-no antes ao ataque e torna-te o pior dos chulos, um daqueles beras e vis que oferecem flores no dia do milésimo cliente.

- Eu gosto de flores.

...

- És a minha melhor puta.

- Sim, os meus beijos são só teus.

- Pobre criança. Qualquer dia, ainda me pedes em casamento.


Já dizia o argumentista que chocamos todos uns contra os outros, só para sentir algum tipo de toque. Qualquer coisa assim. Eu concordo, mas às vezes penso, penso só e não digo, porque dizer torna tudo mais definitivo, que chocamos porque queremos clientes. Porque a loja fechada não dá lucro. Porque a vida tem violações, torturas, castrações e demónios muito mais do que quanto baste, que o interior chega a parecer absurdo quando se declara com dor. Se é isto a dor, que venha muita, que venha mais e sempre mais, porque eu quero é sentir-me viva. Sentir. Me. É justo que, se queremos vir ao mundo, não alucinemos em mundos cor-de-rosa. Se os nossos filhos se sairem a ti, juro-te que me suicido.

Conversa entre dois estupidos, casmurros, orgulhos

- Olha vou-te mandar às urtigas 'tá bem?
- Como queiras, depois não te queixes.
- Não me queixo do quê?
- Quando mudares de ideias amiguinha, 'tás fodida porque não há cá menino pa ninguém!
- Ai é? Muito me contas... ainda ontem dizias que não ias deixar que te mandasse às urtigas...
- Ehrmmm...Pois, mas o caso mudou de figura. Quem sou eu p'ra contestar uma decisão tua, és maior e vacinada!
- Eu gostava que contestasses sabes? É que eu não quero ir a lado nenhum!
- Oh filha deixa lá é melhor assim, choras agora daqui a um mês já nem te lembras.
- Grande besta. Sabes que mais? Vai-te foder.
- Adeusinho! Ah! Só mais uma coisinha: Amo-te.

segunda-feira, 10 de março de 2008

A escuridão


Anjos mortos prostrados no ar ,
Dura a riqueza das suas asas que largaram ouro pelas nuvens
Leve a sua morte nos céus dourados pelo Sol,
Largaram a sua consciência, assim o quiseram.
Escura a sua roupa pela morte da alma,
Descalços os pés que raramente tocaram no chão;
Dá som a chuva que dói no cabelo,
Palavras que tocaram o fundo, que cheiraram a imundice.
Anjo solto, anjo agarrado à existência inexistente
Pobre ser preso à sua condição
Personagem que voa livremente pela imensidão,
Pedra no sapato de quem os desacreditou.
Morre anjo, morre que a morte já espreita;
Morre que o dia já morreu, já lá foi a hora
Hoje somos vivos para morrer,
Amanhã somos mortos que se esforçaram para viver.

Eduardo Coreixo

Ridículo sou eu!(?)


Ridículas são as pessoas que têm medo de parecer ridículas, que gozam com quem se espraia ridiculamente, com quem sente. Ridículas são pessoas que pensam que só o que lhes apetece é que é "gozável". Ridículas são pessoas que não sabem brincar, ou que não são solidárias em brincadeiras alheias, que as convidam a juntar-se. Ridículas são pessoas que já ensinaram tanto e caem no ridículo de escrever textos ridículos como este. Ridículas são pessoas que após momentos mágicos destacam os aspectos negativos da magia. Ridículo é quem ensina que "todas as cartas de amor são ridículas" e depois tem medo de viver sob esse principio. Ridículo Ridículo Ridículo...

Ridículo é:
adj.,
que provoca ou desperta o riso ou o escárnio;

irrisório;

de pouco valor;

insignificante;
Mágico é:

fig.,
que encanta;

que seduz;

extraordinário;

fantástico;
Como os opostos se atraem. Indeed.
(Afinal talvez não seja eu o convencido.
Why can't you see that I try?...)

Lição nºinfinitos
à Filipa B. M. Santos

Ed.









( Hey you Mrs I dont know what the fuck your name is
Im drawn to you somethings magnetic here
If I could approach you or even get close to the scent that you left behind Id be fine
No doubt that (no doubt) you bring out (bring out) the animal inside

I'D EAT YOU ALIVE!!!! i'd eat you alive.....
I'D EAT YOU ALIVE!!!! i'd eat you alive.....

Hey you, Mrs. too-good-to-look-my-way and that's cool you want nothing at all to do with me.
But I want you, ain't nothing wrong with wanting you cause I'm a man and I can think what the hell I want, you got that
straight?
No doubt that (no doubt) I'd love to (I'd love) sniff on them panties now....

I'D EAT YOU ALIVE!!!! i'd eat you alive.....
I'D EAT YOU ALIVE!!!! i'd eat you alive.....

I'm sorry. So sorry (damn, you're so hot!!)
Your beauty is so vain (damn, you're so hot!!)
It drives me, yes it drives me (damn your so hot) absolutely insane

I just want to look at you
I just want to look at you, look at you all day
I just want to look at you, I just want to look at you all day
There ain't nothing wrong, no. There aint nothing wrong with that

Once you seep in (once you seep in) under my skin (under my skin)
Theres nothing, theres nothing in this world that could wash you away

Once you seep in (once you seep in) under my skin (under my skin)
Theres nothing, theres nothing in this world that could wash you away.....

I'm sorry. So sorry (damn, you're so hot!!)
Your beauty is so vain (damn, you're so hot!!)
It drives me, yes it drives me(damn your so hot) absolutely insane

I'D EAT YOU ALIVE!!!! i'd eat you alive.....
I'D EAT YOU ALIVE!!!! i'd eat you alive.....
I'D EAT YOU A-LIVE!)

domingo, 9 de março de 2008

Porquê?
Não percebo, não aceito e tão pouco perdoo.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Não tem de quê



Pronto, ficamos assim. Não é nada em que eu já não tivesse pensado, ficarmos assim. Mas pronto, não era bem isto. Mas ficamos assim? Claro, claro... claro- escuro, não sei se fiquemos. Achas bem que fiquemos assim? Eu não acho nada, tenho em mim a opinião de todos os assuntos como um único, o da minha morte - quanto menos pensar nisso, mais vivo ignorante e feliz. Se ficássemos assim, já estaria muito dito. Sim, sem dúvida, já tínhamos aprendido muito um com o outro. Que aprendemos hoje? Que bebemos café na mesma esplanada, quando não está frio. Que nos rimos na mesma altura, em piadas diferentes. Somos tolos e odiamos a palavra. Empregamos os inhos quando queremos escarnizar a conversa ou a fronha de alguém. Sim, somos maus, quando queremos. Tu, mesmo quando não queres. Ficamos assim? Ficamos assim.


...


Eu aprendi também que aprendi coisas giras hoje, sem te ter ao meu lado. Não sei a cor do teu riso. Eu não sei se te ris. Rio-me e até desapareço, quanto tu sais sem te despedires. Também choras? Grito muito, grito, grito. Mas choras? Desatino e berro com a alma , em estações de comboios, pareço um homem. Choras? Bem, eu tinha um papagaio que sempre me pareceu mais alto que o céu, quando o prendia e o deixava voar e ele só tinha olhos para mim. Um de nós voava, consegues imaginar?, eu tinha algo que voava e só me concedia desejos a mim. Fazia sentido na altura, mas enfim. O que eu te queria dizer é que me habituei a ele, sempre ali, solto e preso nas minhas artérias principais. Parecia-me belo, justo e o ideal, se fosse para sempre assim. Ele só tinha olhos para ti. Exacto. Um dia , já não sei porquê - esquecemo-nos sempre rápido, sim- distraí-me com o sol, o grito dos gelados ou as pegadas perdidas. Quando me voltei, assisti à explosão final, ele estatelado no chão e eu sem gelado ou pegadas. Nenhum de nós voava e nunca mais voltei. Mas choras? Ele morreu e eu deixei-o morrer. Assim, como se não pudesse ressuscitá-lo. Eu sou má, mesmo quando não quero. Olha, eu choro. Se te resolve a vida, tudo bem.
....
Acho mesmo melhor ficarmos assim.
Estamos assim há meia hora. Largas-me, ó faz favor? Muito Obrigada.


quinta-feira, 6 de março de 2008

Novela Novelo

-Enquanto não encontras a mulher certa, diverte-te com a errada.
-Ok.
...
-És burro ou quê? Não era suposto apaixonares-te pela errada.
-Ah e agora é que dizes?

____

-Hoje apaixonei-me 42 vezes.
-No comboio?
-No caminho.

____

-Achas que devo comer torrada ou chocapic?
-Torrada com pouca manteiga.

____

-Desculpe, não conseguimos resolver o seu problema.
-(pois, não estava a espera que conseguíssem.)

Pessoa(s)


Gostava de me poder mascarar,
Fugir aos destinos que estamos destinados, respirar o ar daquela personagem
Poder gritar sem saber quem sou.
Usar a máscara indicaria a protecção de uma identidade
Aquela que até posso ter, mas que não mostro,
Qual esquizofrénico, gostaria de ser como Pessoa,
Viajar por diferentes mundos e crenças,
Adoptar diferentes poses de estar (a luta e a verdade)
Abrir a mão e mandar um murro na parede. Sem saber que sou eu.
A máscara seria o meu guarda-costas
(Desde que daquela vez chorei e fui criticado que quis ter um)
Sei que sou eu, mas a máscara seria o meu outro personagem.
Queria uma máscara de chorar, uma de rir, outra de pensar,
Queria um facto de mimo, outro de policia e um de burro,
Para conjugar com as máscaras.
Queria passar por ti e soprar-te nos olhos sem saberes quem sou,
Mandar-te beijos e olhar para o céu em jeito de inocência,
Criar as expectativas, sabendo que não as cumpriria.
A tua máscara posso ser eu, importaste?
Cubro o teu mau humor, a tua impaciência, mas não escondo
Não esconderei nem escondi o teu, nosso amor.
Quero, quererei e quis ser teu, e tu
Tu olhas, olharás, e olhaste para mim e gritaste que sim,
Que serias minha, mas que eu, pobre maltrapilho das máscaras,
Apenas seria teu quando abandonasse todas as diferentes personagens,
Só quando estivesse contigo, sem mais ninguém.
Queres que seja eu com a minha esquizofrenia
(porque sabes que é o que me inspira)
Mas apenas na poesia, porque a realidade não permite devaneios.
Pois então aqui me tens, sem máscara, sem pudor,
Apenas eu, com o meu fato de poeta/amante/amigo/confidente.

Eduardo Coreixo

terça-feira, 4 de março de 2008

Barco


Não tens noção. Não tens uma pinga de noção ou sinceridade contigo mesma. O que te corta não são as lâminas, são as frases. Odeias romances que tenham um final feliz, porque desesperaste e o mundo não mudou, por isso. Não querem saber, minha menina, para a frente é que é caminho. Seca os olhos, faz-te à vida, o Destino marca a hora.

Não estou cega, é importante de memorizar. Não estou cega, não estou cega. Nem surda, nem limitada. Mas a vida seria bonita senão houvessem equívocos nem enchentes de conselhos. Gente a mostrar a bandeira branca para que passe e viaje com a Companhia Seja-Feliz-a-Voar, gente a puxar-me as saias para que caia agora, enquanto ainda há tempo ; enquanto ainda não gosto - e gosto muito e não sei explicá-lo ou fazer ver; enquanto ainda não estou cega, estou fora de mim e faço uma loucura todos dias (daquelas pequeninas, que não valem sequer).

A noite vai bonita e depressa, de vestido branco e batom vermelho. Engate, pela certa. O agora é passado e tu não estás; é o ar que se decreta insuficiente para os dois, ao que parece. Hoje queria dizer-te uma coisa, mas as palavras estão gastas. Quando se sente, as coisas ficam sempre para amanhã- depois, pode ser?

Não estou cega. Fica a promessa: os meus dias vão ser bem mais longos, que os sonhos não têm, definitivamente, o baralho todo e depois dizem que somos nós os culpados. Apontar o dedo é tão fácil.


(Fotografia de Eduardo Coreixo)

"Não fazem falta nenhuma. Como é possível perder-se tempo com estas merdas? Mulher má, mulher amada, anjos irrelevantes."



in O amor é fodido, por Miguel Esteves Cardoso

Desejos (imune sensibilidade)


Gostava de saber o amor
Quem dera ver o mundo de cima de uma folha de papel
Com a caneta na mão, no frio de uma noite quente.
Quem dera poder espreitar a alma que invade
Saber os murmúrios de uma estrela velha
Saborear o som de uma gota redundante na água
Quem dera ser eu o último a levantar a mão na morte.
Volta a sensaboria de não saber o que escolher,
Eu sei que que qual cadeira de três pés,
Caio na ilusão de querer ser estável nas cordas de uma guitarra,
Pois quem dera saber seleccionar a vontade que tenho.
Quem dera, sim, poder te beijar o teu olhar,
Sentir a sinceridade do teu momento
Poder amar sem dizer que não tenho que ser amado
Quem dera te tocar na hora em que choras por desespero
Poder ser a letra da tua música que te inspira
Querer escrever o poema da tua vida,
Quem dera eu ser eu, quem dera que assim não fosse.
Podes não ficar triste, isso não quero de facto
Sejas quem fores, que sejas portanto tu,
Porque aqui e agora que faltam as razões,
Quem dera sermos sempre nós a lutar e a ficar.
Quem dera ficar assim...

Eduardo Coreixo

segunda-feira, 3 de março de 2008

nem sei o que estou a escrever, quanto mais o título a dar

- Então ela está tão perto de ti, e tu não vais ter com ela?
- Não me apetece.
- És mesmo parvo.
- Déjà vu .
...
- Gostas dela?
- Gosto de todas, e não gosto de nenhuma.
- Não sejas parvo.
- Já fui.
...
- Não a tens porque não te empenhas.
- Não quero consumir-lhe a liberdade. Não quero, mais tarde magoá-la.
- Que parvoíce! Se não tentares nunca saberás.
- Sim, sou.


Continua...

domingo, 2 de março de 2008

Fantasma Qualquerdia



Qualquer dia, ai , qualquer dia, acordamos todos com vontade de morrer e o mundo acaba, tão certo como eu não existir e eu sei do que falo à toa. O único problema maior de todos os horrores é a minha língua entorpecida pelo coma a que foi forçada; falta de papel em casa e uma caneta exclusica para as cruzes no calendário. Ninguém acredita nisto, vai brincando que qualquer dia, pronto. Tenho medo - por favor, preciso de deixar de amar rapidamente. Preciso de escrever sobre coisas sérias, coisas em que acreditem e não jogem lixo fora, Xô, bicho feio, vício aceso, desperdício, tempo, de.
Qualquer dia, ai, qualquer dia, há balas perdidas que matam o cego que não queria ver, o pecador pelo pecador, o justo julga-se o maior de todos os pequenos e isto já é tanto, se sabe que não existe. Saltos altos queimados, maquilhagem borrada. Qualquer dia. Gente que não se ouve nem ouve outrem, qualquer-ai-qualquer dia essa gente mata-se porque já disse tudo e os sonhos deixam de se contar. Os números e o mar a desaparecerem, baleias e génios como ratazanas e loucos, dentaduras voadoras e dentes partidos. Chapéus há muitos e não terão uso. Choramos e fabricamos fetos porque não há televisão nem conversas.
Qualquer dia acordamos com vontade de morrer e o mundo acaba. Até para os que mais amamos. Vamos à vida, à vida, está tudo dito, o original é isto, repetir que vamos à vida e ninguém nos ligar. Não acreditam, eu não existo e não falamos de amor (e) não existimos. Não existo nem leio entrelinhas. Qualquerdia, amas-me? Qualquerdia, estás morto. Amas-me? Tu és eu e eu... Basta.

sábado, 1 de março de 2008

Ponte de uma Vida


Viver sob a vida e a morte
Viver sobre a morte e a vida,
Porque passamos pela ponte do desespero,
Porque se perdem os valores.

Viver sem perder a miragem do que se quer
Viver por querer o que se perde de vista,
Porque se torna pesada a ponte que dali sai.
Porque é impossível ser bota no pântano.

Hoje senti-te a respirar junto a mim,
Ali quando olha da ponte para baixo.
Éramos folhas retocadas pela sensibilidade,
Eras tu, o meu pára-quedas de infelicidade.

Vives porque queres ser mais alta que o poema que te assola
Porque as pontes da vida não são para serem cumpridas,
Vives porque gostas de me tocar a alma,porque assim queres.

Vivo porque gosto de te mirar ao longe da minha torre,
Porque quero saber se és verdade ou fantasia,
Vivo porque és a minha ponte entre o meu mundo, e a realidade.

Eduardo Coreixo