quarta-feira, 30 de abril de 2008

Amo-a porque tem Alma




Devolvam-me a casa de bonecas.


Na minha antiga casa, na minha antiga rua, morava um cheiro de antigo mesmo quando ainda era novo que é impossível de não encontrar por mim abaixo. Tinha vizinhos que me davam sorrisos e rebuçados, tinha avisos de não dar a mão a estranhos, tinha estrelinhas que olhavam por mim e tinha um irmão que brincava comigo a todas as horas e que toda a gente menos eu tinha a certeza de ter morrido. Tinha brinquedos e uma infância feliz, daí ainda hoje dar tanta importância a beijos e abraços.


Na minha antiga rua morava um senhor carpinteiro e a sua mulher. Sempre soube que escreveria sobre eles, só não sabia o quando. Nunca pensei que fosse agora.
Tínhamos o senhor Silvestre e a sua mulher, que, não me lembrando do nome, apelido-a agora de Amora, para dar mais consistência à minha história. Na minha antiga rua eles eram anciãos e amavam-se e para mim não existia outra forma de amor que não aquela. O dos anjos sem sexo, o da dor amarga dos sem filhos repartida por dois, para ser menos. Dor que não era menos, que era imensa. Eu era uma neta de um amor e de uma amora que me deram uma casa de bonecas de madeira envernizada e mobílias bordadas e brancas. Eu preferia as ciências, até encontrar as Artes. Hoje penso que muito se deve aos meus avós de brincar sem família descendente. Está dito, está dito.


Eu tinha um quarto com uma pequena janela encobrida por cortinas azuis e cor-de-sonho. Eu tenho uma Lady, que se perdia nos meus brinquedos e não estragava nem um. Primeiro, era mais uma bonequinha de passinhos pequeninos. Depois o meu irmão desapareceu. Eu cresci e tornou-se uma irmã muda, uma parte de mim loira e sedenta de vida e mais vida, igual a vida que me deu a mim. A minha Lady. Cancro. Devolvam-me a casa de bonecas, por favor...
... ... ... ... ... ....

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O cigano


Gostava de ser cigano, mas o verdadeiro mesmo
Viajar de animal à frente, sem ter que pagar nada
Pegar na minha coragem e desaparecer no horizonte,
Chorar pela infelicidade que me apela,
Mas cantar para elevar a moral

Gostava de ser um verdadeiro cigano
De vales e montes, de riachos e videntes
De ter aquela alma de sacrifício desleal,
Ferrar os dentes na pele enquanto algo dói
Para me sentir vivo, para saber que era cigano.

Gostava de me sentir cigano,
Para ter a alegria no coração que rejubila de saudade
Poder louvar as árvores e arbustos mor
Porque seria feliz de pão e água na mão
De abrir os braços, e gritar a temperatura corporal.

Gostava de ter atitude de cigano
Para saber dançar com o corpo escorrido em suor
Para agitar a tristeza de forma rarefeita
Para ser aquilo que não sou.
Eu, poeta destemido, hoje quero ser o cigano imundo.

Eduardo Coreixo

domingo, 27 de abril de 2008

Tenho um amigo

Tenho um amigo que um dia conheceu uma (a)miga, e desde esse dia, nunca mais foi o mesmo. História banal, em qualquer vida individual. Já se ouviu falar disto, não é novidade nenhuma.

Ela disse: I put a spell on you.
Ele disse: me too.

Só que ela era melhor feiticeira
e o feitiço dele já desvaneceu.
E ainda nenhum morreu.
E a perspectiva já não é igual à primeira.

Perguntei ao meu amigo qual era sua história e ele explicou-me que era simples. Tinha tido alguém na vida dele que era perfeita e ele era perfeito também para ela. Ele era feliz porque apesar de imperfeito era perfeito de qualquer modo. Mas um dia isso mudou, ele deixou de ser o melhor, deixou de ser perfeito, deixou de ser emproado e convencido, porque não vale a pena sê-lo quando ninguém nos confirma o que pensamos, e afaga o ego. E então, contou-me ele, quando deixou de ser o melhor, quando passou a ser só convencido (mas ele já sabia que o era, não precisava de ser recordado, precisava de ser corroborado), quando deixou de ser convencido e realista para passar a ser só peneirento, ele foi-se embora, mesmo com o feitiço no activo. Isto contou-me ele. Que forte, eu não era capaz.

ER

Manobras de Circo


Fiz tudo à minha maneira
Derramei-me à minha maneira
Quebrei-me à minha maneira
Apaixonei-me à minha maneira
Chorei à minha maneira
Senti o chão à minha maneira
Criei o meu circo à minha maneira
Mirei-te à minha maneira
Suspiro à minha maneira
Casei-me à minha maneira
Sou eu à minha maneira,
Adormeço hoje à minha maneira.
A estupidez,hoje, É A MINHA MANEIRA!...

Eduardo Coreixo

sábado, 26 de abril de 2008

Eu vi mas não agarrei



Mais uma vez, eu vi mas não agarrei.


Existem retalhos de ti que me vão encontrando. Como quando encontro clips nas pedras da calçada, ou isqueiros com desenhos de anjos e chaves com asas. Como quando acordo com vontade de devorar todas as coisas boas no mundo e mantê-las todas dentro de mim, na certeza de que assim, tudo vai correr bem. Quando interligo o Universo com uma estranha certeza de ser este o caminho. Como quando pessoas únicas e mágicas como tu me aparecem e se sentam à minha beira - e amam Arte e comparam Meca com o resto da Europa. Filosofias de vida que me encaixam como uma luva, ou gente interessante simples. Gostava de cruzar no calendário as datas; entretanto esqueço-me de mim e do que é sentir. Mas hoje basta-me que não seja aquele, que sejas tu e que ainda tenha dois dias para me começar a esquecer dos teus traços siameses e das palavras oferecidas ao vento que- nos- leve- aonde- ele- quiser. Eu sou fácil de encontrar, mas muito pouca gente vê isso.


Falei-te em viajar; queria que me levasses contigo, mas não sabia ainda o teu nome. Logo no início, queria que me levasses contigo. Devia ter gritado que te queria ver novamente, mas mais uma vez foram as minhas pernas as únicas a moverem-se. Direcção oposta, ritmo dinâmico, enquanto a estaticidade tinha aquele travo a pessoas mágicas e únicas à minha beira.

Nestes dois dias em que ainda não te esqueço vou -te escrever os cabelos, contá-los um por um e transformá-los em serenatas, para depois lançá-los ao vento : aqui estás, aqui foste.

Quem sabe um dia. Outra Vez. Eu agarre. Eu sinta realmente muito prazer em conhecer-te. Dei-me conta hoje de manhã que um dia vou ser eu a morrer.



quarta-feira, 23 de abril de 2008

Razumen



O entretanto é a minha íris preferida. Porque é milagre e porque os começos estão sempre longe e os fins perto demais. Digam o que disserem, mal escrevam o que ousam disfarçar, mas concordem comigo pelo menos nisto. O entretanto é o que nos faz pessoas e os assuntos mundanos estão na ordem do dia.


Deus queira que o meu lugar ainda não tenha mudado de lugar. As cadeiras são poucas, entenda-se, mas o tempo é ambíguo e não tem dimensões certas. Se a rotina é inimiga, também o tempo traz tantas dúvidas com ele e ninguém o compreende. Incompreensão é coisa que lhe serve; tudo o resto é resto. Restos não deveriam existir sequer no dicionário, quanto mais no prato. E eu continuo na balança do não saber o que sentir e não saber o que escrever. Ando aos tombos, neste entretanto, mas feliz por ter carne e ossos; e sangue, e veias, e músculos, e narinas e bastonetes e cones nas retinas. Deus queira que os que mais amo sejam felizes - e o meu lugar, que não mude de lugar.


Sou um pássaro desligado do ninho e de asas disfuncionais. Continuo a querer ser pássaro, por poder ter a sombra e a luz toda em mim, quando não chove. Ânsias de ser mais forte, acolá, onde os Grandes são relembrados. Ou pelo menos, ter um filho que reconheça a minha eternidade.


Entretanto, as ramagens estão a secar. As veias não correm como antigamente. Não tenho um olho mais claro que outro. Os brilhos fugiram todos no comboio sem paragem terminal. De vez em quando, mandam-me cartas de prisões e falam-me de piós e obras bastardas de loucos em Jericó, nada com muito sentido nem direcção; não lhes respondo, porque tenho medo de correias.
Nada é o que parece e ninguém se lembra disto. Mas somos pessoas, devia bastar-nos; entretanto, os guarda-chuva partem-se e dão vez à última noite de amores impossíveis e,por isso mesmo, eternos.


No meu mundo ideal, os galhos não se partiam e o sangue era só nosso.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Madrid/O maior espectáculo do mundo (revived)/Eu e eu (e tu)

Aqui ou em Madrid
eles vão estar lá.
Acolá ou em Calcutá
eles vão estar ali,
na situação, comigo.
Não é esse um dever de um amigo?

Coisa gira é não fazerem por dever,
coisa gira é fazerem por querer.
____________________________________________________

Sou um palhaço.

Aquele palhaço que sempre divertiu as pessoas, continuará a diverti-las, até um dia...
Se perguntar se as pessoas me ouvem, me vêem, me sentem, elas responderão que sim. Mas se eu me calar, se eu desaparecer, se eu deixar de tocá-las elas exigirão o meu regresso, não importa se estou doente, cansado, mesmo a morrer, não importa. Elas necessitam de me consumir. Para elas sou um sonho, eu serei o que elas me sonharem, eu poderei ser poeta, rei, amante, tudo, desde que as pessoas o sonhem assim.
E eu sonho que elas me amam, que se importam comigo, que realmente me ouvem, vêem, sentem...
Se algum dia puserem a vista num melhor palhaço que eu, abandonar-me-ão e estarei entregue a necrófagos. Isso é uma certeza. Até lá, eu e o meu público vamos sonhando mutuamente. Eu sonho que eles me amam. Eles sonham as suas fantasias em mim. Enquanto tiver forças, podem consumir-me como quiserem, usar-me para o que mais fantasiarem. Neste mundo quimérico é o único recurso que temos. Sonhar. Fingir ser real o que mais ambicionamos que o seja. E como palhaço, terei com certeza uma grande plateia sempre a aplaudir-me, nunca estarei sozinho. E, contudo, quando estiver sozinho, irei reparar que estou mais acompanhado.
Esse palhaço sou eu.
Conseguem ouvir-me? Conseguem ver-me? Conseguem sentir-me? Claro que sim. Conseguem compreender-me?...
Um dia, o palhaço apaixonou-se, o seu amor era o melhor porque provinha do sonho, maldito e bem aventurado sonho que prendeu o palhaço nessas correntes férreas, as do amor. Ele não podia possuir o seu amor, era demasiado feio, coxo, desengonçado, era demasiado palhaço. Mas o seu amor era perfeito porque era sonhado.
Por vezes, de noite, escapavam os dois amantes do mundo, corriam pelas nuvens, em direcção à lua cheia, nela beijavam-se e descansavam, e depois, subitamente, ela desaparecia. Onde se metia a sua amada que tanto amor lhe tinha dado, que tantas carícias lhe tinha dado, que tantas promessas lhe tinha feito? Desaparecia todas as noites, no mesmo momento, depois de se beijarem na lua. O palhaço não compreendia que esse amor era impossível porque era apenas sonhado.
Esse palhaço era eu.
Um dia, o palhaço irá cansar-se, não irá saber lidar mais com a pressão da plateia sempre exigente, sedenta por novos truques, à espera que cometa algum erro para rir da desgraça. Não irá também aguentar mais a sua espera pelo amor e não conseguirá nunca sair do vício de sonhar.
Quando o palhaço se cansar procurará um reino afastado, com uma árvore que sirva de forca e sonhará para sempre ali pendurado com um sorriso macabro e o corpo oscilando ao vento.
Esse palhaço serei eu.
Um dia, li um texto de ma colega de turma. Ela dizia que todos usamos uma máscara. Acho que nunca me esquecerei de algumas frases desse texto. Eu admito, uso até mais que uma máscara. Finjo que sou feliz, que sou inteligente, que sou interessante, sábio, amigo, mil e uma coisas, quando no fundo sou só um palhaço. Todos usamos essas máscaras para que os outros sonhem que somo o que a máscara nos mostra. O que mostra a tua máscara?
Que valor têm realmente as máscaras se nunca seremos o que representam?
À noite retiro todas as máscaras e sou só um palhaço infeliz. De dia, posso ser feliz, inteligente, interessante, sábio, amigo, mil e uma coisas, mas só com as mascaras colocadas...
Esta rotina cansa-me e o meu único escape é o sonho. Em sonhos posso ser rei, poeta - ah como eu gostava de ser poeta - amante, posso voar junto às baleias, o céu pode ser cor de rosa, posso até ser livre!
Fora o sonho, sou só mais um palhaço.
Um palhaço que um dia se enforcou.

2006/02/21

____________________________

Eu e Eu (e tu)
A partilha da própria vida com alguém:
- O que tens aí?
- São coisas minhas…
- Estás a pensar em quê?
- São pensamentos só para mim…

8/3/2006



Anos volvidos

e nada mudado...



o palhaço não falha
o palhaço não falhou
o palhaço não falhará

Figurantes



Somos todos comuns. Cada vez somos mais iguais
Cada vez há menos originalidade
Cada vez somos mais muros de cores semelhantes
Cada vez mais há menos sorrisos
Cada vez menos cheiramos a saudade
Cada vez menos ouvimos a saudade de uma guitarra só.

Somos todos comuns. Deixam-nos ser empecilhos
Deixam-nos ser reflexos de uma tristeza estampada
Deixam-nos entender a morte alheia
Deixam-nos cair a todos desta arca velha
Deixam-nos ver a pobreza das mãos cansadas
Deixam-nos tocar um céu verde de inveja.

Somos todos comuns. Gostamos todos da língua alternativa
Gostamos todos de saborear a parede branca
Gostamos todos de fazer juras sem fundo
Gostamos todos de olhar pela janela vazia
Gostamos de perder a razão, porque somos inconsequentes
Gostamos de um bom desafio...O impossível.

Somos todos comuns. Dizemos que somos mundos tresloucados
Dizemos que queremos a câmara da terra
Dizemos a todos que perdemos a razão,
Dizemos todos que o cansaço é nosso dono
Dizemos que gostamos de fugir todos aos holofotes da fama,
Dizemos que não gostamos do reflexo daquilo que somos.

Somos todos comuns. Todos queremos a fama,
Perdemos a noção de verdade imparcial
Transformá-mo-nos em tracção para chão imundo
Queremos coisas que não temos, mundos distantes.
Somos todos comuns, pintando em telas pretas a nossa sorte
Somos todos comuns, somos Tristes Figurantes.

Eduardo Coreixo

domingo, 20 de abril de 2008

Semi




Já cá cantam mais batalhas quase imperceptíveis e lições aprendidas, quase, quase sem me dar conta. Depois é aquela coisa do não olhar para trás e pensar que é para a frente o caminho. Não doeu nada- não me doeu realmente nada, depois da dor. Vou fazer uma troucha com percalços, ilusões e uma bolacha; depois mando-os à vida que os apanho lá mais à frente, por via de postais e cartas ao zé-ninguém. Tenho a certeza necessária que é preciso ter e a força vai bem, muito obrigada.


Não vou a lado nenhum, se me deixarem. Dedico-me ao mundo, enquanto não chegares. Tento por tudo que não sejas aquele que não vejo, quando não olho e até rezo; até rezar voltou à mesa. Sei que vens e isso basta-me; não tenho pernas que acompanhem o meu coração e de tanto procurar quase me perdi. Graças a Deus que tenho lições aprendidas e que até me parece ter ganho a luta com as coisas invisíveis. Sou uma espécie de semi- super-mulher com semi- aleijada - sentimental. E não me queixo, atenção; estou à espera do passo número três. Quanto a ti, meu bem amado, podes vir quando quiseres , que eu não vou mesmo a lado nenhum.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

&c

Tenho mãos inúteis, os meus pés andam loucos, a minha boca ri-se demais e os meus olhos estão fracos. E enquanto espero que isto não seja verdade, porque é verdade que a verdade dói, existem palavras infelizes que dizem que são tudo, menos infelizes; preferem não pensar, também o dizem elas e ecoam em pedidos de socorro, deviam-no dizer. Eu não digo nada!, tenho a boca selada, para que não me apontem a escanifobética do sistema, quando se cansarem de falarem tanto e dizerem tão pouco. Observo muito e penso ainda mais. E pensar é pior que dizer, minha filha, já me dizia a minha mãe.



Nota-se quando escreves com alma, com coração e isso tudo e adereços. Eu noto que não me conheces. Aprendi hoje que não é só com a morte que, Mais tarde ou mais cedo, vai ser tarde demais. E logo quem, a menina que aprende, a menina que não quer aprender, a menina que se cansa de brincar mas também não quer aprender. Os números deviam ter um fim, realmente. Não é por ter saudades que me torno menos gente. Não é por seres gente que tens o direito de erguer muralhas. Não é pelas muralhas que tenho medo, é pelo que está fora e dentro delas.


Não sei falar de amor, tenho mãos inúteis. Todo o meu Futuro foi passado lá atrás. E hoje morro, não porque fica bem morrer no final da carta, mas porque preciso de uma porta que entale menos, que entale menos e não doa, que não doa e desapareça, que desapareça para que eu respire fundo e a chuva seja só um pouco menos ímpia nos meus dias. Devolve-me as estrelas.


Um dia hei-de escrever coisas belas e poéticas, que sejam belas e poéticas por elas mesmas e eu seja só um meio para que elas cheguem ao seu fim.


Carta de um louco


Traí-me a mim mesmo
Estraguei a minha vida ao questionar o saber certo
Atirei-me pelo precipício a baixo, e não vi que não haviam barreiras
E há algo em mim que me consome, paredes que se fecham.
Estou convencido que é apenas demasiada pressão para mim
Lixa para a minha pele,
Porque confundo o que é real com a minha estupidez,
Retiro-me para a minha morgue.
Rastejo por estes corredores a direito
Traio até o chão que já não piso
Morro certamente por não achar que valia a pena,
Mostrar afinal o que era, sem rodeios.
Morro. Vou morrer.
Culpa estúpida de quem vai morrer,
Mas a verdade é que gostava de rectificar,
Por isso, desculpem-me pois então
Porque para mim é tudo demasiado irreal, e apesar de tentar
Tudo se desmoronou à minha frente,
E é por isso que caio, para perder tudo o que não tenho.
Cheiro a chama da morte, porque novamente já nada o é
E no fim de contas, interessa-vos que me vá
Que cuspa o sangue dos murros que levei, com razão,
Que vos deixe. Não trai a vossa confiança,
Apenas a tua e a tua, e a tua.
Sou sincero porque digo que quero morrer.
Quero porque sei que mereço, sei que não estou convosco vivo
Que a minha melhor parte já há muito morreu.
Gostava que este momento fosse acompanhado por teclas de piano
Porque empurrei tudo o que tinha de bom, meti à beira do prato
Para enfatizar o drama, coberto pela neve das cinzas
Porque este é o meu último dia
Peço para que não chorem, não mereço tais lágrimas.
E eu só gostava que não se sentissem assim
E eu só queria que estivesse vivo para te testemunhar
E eu só desejava ter sido diferente.
Consumi-me de raiva por ter sido anormal
Quando já nada era certo para mim
Gritei e lá fui eu, ribanceira abaixo
Qual carro descontrolado, seu quem o guie.
Não ando, rastejo
Não penso, tenho medo
Não tenho realidade, sou híbrido.
Algo me trás à superfície, e estou envergonhado
Por isso chega a hora de me ir, de perder-vos de vista
Porque a morte salta em minha direcção,
Vem buscar a minha triste alma de pecador
O reflexo do desespero de quem foi algo que não era.
Adeus.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Fogosamente


Arde fogo na lancheira vazia

Mortas as cinzas a seus pés

Escaldadas as palavras que o descrevem

Quente o seu coração.

Arde fogo nas mãos de quem o toca

Os olhos que o completaram são claros, cor de mel

Caracóis ardidos pelo som das cordas.

Arde fogo, fogo arde

Amanhã serás cinza

Hoje és corpo de gente, pretas as tuas acções

Objecto de ódios e amores.

Eduardo Coreixo

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Kind of sweet


Perde-mo-nos
Neste silêncio que invadiu
Nas horas que tocam os ponteiros
No estilo de roupa que se trocou
No tempo em que não nos vemos
Agora que o sol se apagou.

Encontrá-mo-nos
Agora que cheiraste a brisa deste vento abrasador
Que viste que o céu é arma que me deste
Quando reparaste que a paciência estava de volta
Porque vasculhaste gavetas de memórias
Assim que soubeste que eu estava aqui.

Sorriu
Porque assim te mostras
Porque estou em paz com a mente
Assim sinto a vontade de te beijar
Porque o amor afinal não acabou
Porque a vontade não é cega, e a tristeza ficou surda.

Eduardo Coreixo

domingo, 13 de abril de 2008

Fechada para Obras


Acontece que há dois tipos de capas, as que prantam para serem despidas e as que , mal por mal, se dividem e protegem duas carnes em vez de cantarem o pranto. Ando a dividir demasiado como vingança de irmã enciumada ou uma inveja mal disfarçada; não divido e o mal só me vem para mim. E eu nunca desejei mal a alguém e isso frustra-me o cenário de pegadas sem pés disponíveis. Não é para se entender. Eu não entendo.


Acontece que acordar fere muito os olhos e eu quase já imploro para que acorde com portas tenores ou estores absurdos no seu esguicho; sempre podia ficar no intermédio, sabias? É o que dizem, que eu já não digo nada. Como respeito ambulante que sou à autoridade, acabo por não saber que dizer quando me perguntas para que lado deambula a minha alma. Até dessa já tive mais certezas, porque houve tempos em que falava comigo. Houve tempos em que tudo falava comigo, até eu passar a transferir as estrelas para íris sem nexo e a procura incessante de um mestre para confusões mentais que se fartaram de mim. Eu segui-lhes o exemplo, porque eu sou eu. E não é para se entender, já te disse.


Acontece ainda que não gosto que me agradeças. Eu sou ninguém que ensine a diferença entre sentimentos. Paixão ou amor faziam falta, de qualquer das maneiras, com as suas divergências. Eu sou como tu, mas com menos dom de seres tu. Parece-me óbvio, parece-me estúpido. Continuo sem conseguir gritar o que te queria dizer. Chamam-lhe bloqueio, mas para isso era necessário que o talento já tivesse passado por aqui; o talento tem demasiado passado para que o consiga entender, atingir. Mas pelo menos, eu admito: somos coisas à parte. Ainda não consigo ser o que queria ou o que sou.


Porque tenho uma parte de mim desmaiada no chão e outra mal dividida. Capas que não consigo decidir para que servem; gavetas vazias, mas que não se conseguem fechar, porque sim. Tenho falta de compreensão nos meus monólogos e não consigo gritar. Nó na garganta que não pende para lado algum, um barco sem proa nem destino à vista. Lembrei-me agora que Acontece , por vezes (não é resposta que se dê, não é.)Mas desta vez, eu não deixo. O prazo está escasso, mas eu também sou pequenina, não me posso perder por tanto tempo. Acontece que fiz uma promessa e tenciono cumpri-la.


Cláudia

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Sem lamentos


Chove a cântaros. Chove para o chão,
Pela colina acima e abaixo,
Pela face de uma abelha,
E eu, eu mordo a lágrima que se confunde com uma pinga de chuva.
Toca o mendigo debaixo com as cordas da guitarra ensopadas
Olhando para a poça em frente
Sentado numa caixa de papel desfeita. Mundo desfeito o seu.
Molho a face para sentir que estou vivo
Trinco aquele teu sorriso que me conquistou. Que não o percas.
Inundam-se as arestas dos cantos redondos desta casa,
Fogem a pés juntos os caracóis, para dentro da sua carapaça,
Molham-se as janelas inexistentes do carro abandonado
Esmeram-se as gotas por me tocar.
Não te esqueças de todas as coisas que te escrevi naquele papel,
Estranhas palavras, é certo. Anjo sem asas,
Toupeira de asfalto, bola de sete bicos, por entre as tempestades,
Paisagens descobertas pelo ruído do desabamento.
Tudo é novo, gasto e descoberto
Debaixo desta chuva de lágrimas e desabafos
Tudo fica humidamente seco
Tudo é a debandada do que faz sentido num mundo incrivelmente
E fantasticamente seco de chuva sentimental.

Eduardo Coreixo

terça-feira, 8 de abril de 2008

Redenção


Com o olhar erramos. Com o coração perdemos. Com a má vontade somos derrotados.
Hoje fui enxovalhado por mim mesmo, perdi a razão. Estúpido fui ao acreditar que me vingar faria sentido, que bastaria isso para que acordasses. Estúpido, repito.
Levaste com uma bala no peito, e ainda estás a restabelecer as forças. Não te censuro, porque também já as levei, balas diferentes, está claro, mas doeram.
Perder a razão, é para mim como se me tirasse o chão de debaixo dos pés, e eu fiz isso a mim próprio. Novamente, estúpido. A minha anormalidade está ao ponto de pensar, que te conquistaria de novo só falando, só te mostrando que tinha razão em alguns pontos. Ter até tenho, mas que interessa isso agora?
Mando um murro na parede, e fico a sangrar aqui por cima do dedo, aqui bem junto a minha pele. Não é nada esta dor quando comparada a aquilo que sentes não é? Sentes-te marioneta barata, sentes que era a estupidez se alguma vez me perdoasses... Contudo, de novo repito, já fiz algo para merecer essa mínima consideração... Que estúpido!
Arrependo-me pois claro, mas que queres, eu gosto de expor o meu verdadeiro eu, que por vezes tem destas coisas. Como disseste, já não é a primeira vez. E a culpa foi sempre minha. Minha. A dor, tua, a maior, está claro.
Quero te dizer que lamento. Lamento desde a alma, até à ponta dos dedos.
Hoje sou estúpido, amanhã, bestial não serei.

Eduardo Coreixo

domingo, 6 de abril de 2008

Desbarato

Chama-me fútil, mas a vida tem de ser bonita, sob pena que não se olhe duas vezes para ela se faltar a este cânone.

Chama-me egoísta, egocêntrica - que eu só tenho olhos em mim e em mim - mas eu só posso querer os sofrimentos todos meus, os teus e os meus, todos - em mim e em mim.

Chama-me mentirosa, que faltei quando te quis presente, eu confesso; toda a peça foi caluniada. Como não, não sendo eu Calipso?

Chama-me alucinada, mas o mundo senão alucina não deve nem merece ver mais sol ou lua a nascer. Pena de morte, para já, para ontem.

Chama-me meretriz em prestações, porque eu sei, eu sei que dou partes de mim ao desbarato e peço muito em troca (dei as mãos ao tempo, as pernas a Deus, o ventre ao talento. Nunca beijei nenhum destes, por respeito à profissão e às contas do final do mês). Mas peço muito.

Chama-me ladra, que roubei toda a pureza que era eu e fui macabra. Mesmo assassina podereis chamar-me.

Chama-me fútil, mas não te atrevas a pisar este chão sem uma vénia à vida ( se bonita, sem sofrimentos, sem prisões, mundos como ontem, tempo, Deus e talento sem inocência alguma, no seu significado erudito). Faz o que quiseres, mas agradece no fim; porque os agradecimentos também se lêem e eu só sou isto que sou porque peço muito.



(Até hoje, não me arrependo). Obrigada.

sábado, 5 de abril de 2008

Pontuação de um momento


Sacrifício. Ponto. Dor. Ponto final e parágrafo.
Um último bocejo, um último toque antes de partir, virgula,
Olhar para trás, ponto e virgula; ver o que fica para trás, ponto.
Agarra-me antes que caia daqui para baixo,virgula
Olho para ti, ponto. Sorris, ponto.
Analisando esta pontuação, foi o momento parado,
Mas sei que foi em locumução, quando me agarraste em ti
Quando a primeira aparição te deu boa impressão,
Também achaste que não era agora. Ponto e parágrafo.
Não me arrependo porque sorri
Escrevi os verbos que inalaste e que hoje digeres
Não vou longe porque a minha colónia deixa o rasto que seguirás
Ponto.
Terra,virgula, o sitio em que queres ficar
Porque sonhaste ser terrestre ainda agora sorriste, já angustias
Calma, ponto. O ponto indica a pausa para respirares
Um novo sentido de partida.Ponto.
Vou ali, ali à esquina só por um pouco, pelo meio da calçada
Mas deixa-te ficar aí que ainda não acabou,virgula,
Mal começou.
Venho já, reticências ...porque estou reticente em dizer que não te amo.

Eduardo Coreixo

10 minutos

Forte a amar, e saindo
ileso de todo o malefício
levado a cabo pelo pecado em
intima ligação com o Diabo, eu
peço a Deus para que ele exista,
abrindo-me portas ao nosso inferno combinado...

A
m
o
-
t
e
.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Carinhos do Sol

Ficámos ao Sol a torrar a pele morena
Ficámos naquela praia de pedra calçada
Ficámos presos naquelas cadeiras pela inoperância.

Foi hoje neste dia de Sol, dono de mestrado
Foi à bocado quando estávamos relaxados da vida
Foi quando todos aparecemos, quando depois, dissemos adeus.

Dia de mercúrio em que o sal ficou espalhado pela mesa
Dia em que o almoço foi demorado, criado pela insistência
Dia em que o convívio foi longo, sem jeito.

Hoje fomos todos normais, como a vida deve ser
Hoje desistimos de ir a aquilo que não queremos
Hoje fomos pequenos rebeldes, grandes relaxados.

Tentei te ligar quando ia para casa, mas não atendeste
Tentei te dizer as saudades que tinha tuas, da tua voz
Tentei, tentei, e voltar a tentar. Não deu.

Talvez valha a pena assim os dias passados sem problemas
Talvez seja mesmo isto que queremos
Talvez mereça pensar que a vida é pobre, nós é que a enriquecemos.

Eduardo Coreixo

terça-feira, 1 de abril de 2008

Doce cegueira



Rostos disformes e sujos
Olhos que já não servem para olhar
Narizes escarlate em tamanho XL
Bocas escurecidas,
Dentes em falta e repugnância como cartão-de-visita
Sujos, empoeirados,
Confundem-se com as paredes velhas em final de vida
Acabarão por desabar qualquer dia sem que ninguém dê muita atenção.
Mãos gastas de tanto vaguear
de tanto embalar o vício entre os dedos
Mãos doridas, fim-de-viagem de trocos a mais na carteira
e peso nas consciências
Mãos inchadas de tanto esperar por dias melhores
que é como quem diz mais verde e vermelho em excursão
entre as mãos e as bocas.

Não olhes! Não pares! Continua como se nada fosse!

Bocas-furor-obsceno-de-palavras-a-meio-gás;
porque os dias de viajante nómada sem rumo roubaram-lhes a energia
e a dignidade
Bocas-abrigo de histórias de desdita e ilusão
sem interlocutores, sem audiência, sem aplausos no fim
Bocas, pontos de partida para mundos inexplorados

Não olhes, já disse! Continua a andar! [Pode ser que desapareçam.]

Olhares vazios, cansados de tentar que se entenda
que as coisas mais importantes não se dizem
Olhos-testemunha do desfile de hipocrisia
a que assistem todos os dias
Olhares-desesperados
Que bradam em vão pela volta de impossíveis

[Estão a mais e incomodam! Pode ser que desapareçam...]

Os dias correm indistintos, o tempo não existe
Só o verde e vermelho interessa
Entre os dedos das mãos e as bocas imundas
São como uma nuvem cinzenta antes de uma tempestade indesejada
Andam em bandos desorientados
com os corpos inchados, sombrios e suados
da longa caminhada
Cheiram a doença e a nojo
Cantam alto para que se perceba que existem
Deambulam de um lado para o outro
Espalham um fedor insurportável
E não entendem que incomodam
Que enojam
Que estragam o dia a quem passa.

[Só espero que não se cheguem perto]

Vivem com a terna promessa de uma longa catalepsia
-prenúncio de descanso eterno...
Mas os saltos altos a ressoar no chão, bem junto ao ouvidos,
acabam por despertá-los do doce marasmo
e a vida continua...
Até um dia.
Entretanto, não olhemos...

humanos

Um dia, gostava de conseguir penetrar na tua cabeça. Descortinar-te pensamentos, sentimentos...encontrar uma ponta do novelo e começar a desembaraçar-lhes os nós.
Facilitava bastante o entendimento humano se tal fosse possivel, porém, nesse caso o que me intriga, os dilemas deixariam de existir.
Que se dane o entendimento humano! Pra quê perceber-te?
Escapas-te-me por entre os dedos, foges-me... Não quero saber porque.
Só queria que voltasses para trás, sem exitar, me abracasses e dissesses: 'Não percebes? tou aqui!'

Tenho um nome fictício


Deixei-te um recado, no atendedor único e fixo da tua casa. Não o deves ouvir até ser (mais) tarde, eu sei que não chegas a casa antes da meia- noite. O meu recado está à tua espera. Muito no fundo de mim, até mora a esperança que não queiras saber do que ficou por dizer, hoje e sempre. O mal está feito e eu tenho desculpa. Porque queria ouvir a tua voz e acabei por dizer demais:



"Olá.... erm... pode-te parecer confuso e totalmente desnecessário o que te vou dizer. Já me perdi nas vezes em que te tentei ler os olhos e saí cega, ler-te as entrelinhas e me tornei analfabeta, em que quis a lucidez por uma noite e essa noite nunca me quis lúcida. Já me perdi, já te perdi, mas nunca nos encontrei. Erm... tudo o que eu queria que soubesses... tudo o que eu queria que soubesses é que não te consigo apagar. (Riso) Eu até sei que tu dirias que é falta de vontade e é, é muita falta de vontade. Mas não só. Tu ainda me apareces em meninos que têm o teu nome - que o dizem todos orgulhosos- , em livros que não queria nada ler, em músicas que pecam por serem tão perfeitas à tua pele. E eu rio-me, eu rio-me, Bruno, mas depois lembro-me e não tem piada nenhuma. Acho que tu não vais morrer tão cedo, mesmo que eu queira, que eu tivesse querido, porque agora morria se alguma sereia me cantasse o pranto. Erm... acho que o que queria mesmo era agradecer-te, mas não tenho a certeza. Por teres sido sempre o refúgio dos dias e pessoas menos boas, das desilusões que tu aproas e depois desfazes, porque tens poderes. Nunca pensei que alguém conseguisse ter tanto para dar a outra pessoa, que se esquecesse que só podia dar o que não fosse dela e acabasse por ser ela a prenda. (Riso) Eu sei que tu dirias rica prenda. (Silêncio). Não, não dirias nada. Beijavas-me e acabavas com as minhas quedas em voo. Erm... desculpa, peço-te sempre desculpa quando sou mais fraca do que pensava ser. E eu sei que não nos confiamos e a coisa é impossível, no final das contas. Mas olha, lembrei-me disto e estagnei aqui. Sabes os doentes de hospital, internados por tentativas suicidas? Não querem morrer, mas não acredito que queiram ser salvos. É assim que estou...e.... erm... amanhã sei que tenho a desculpa e deixo-te outra mensagem a aliviar-te, prometo - (Riso) Gostaste do meu dia das mentiras? Amanhã, hoje é isto. Espero que o teu dia tenha tido muito sol e gritos. Porque senão gritarmos nós sabemos o que nos acontece."
Deixamos mensagem nos atendedores. Medo.