
quarta-feira, 30 de abril de 2008
Amo-a porque tem Alma

segunda-feira, 28 de abril de 2008
O cigano

Gostava de ser cigano, mas o verdadeiro mesmo
Viajar de animal à frente, sem ter que pagar nada
Pegar na minha coragem e desaparecer no horizonte,
Chorar pela infelicidade que me apela,
Mas cantar para elevar a moral
Gostava de ser um verdadeiro cigano
De vales e montes, de riachos e videntes
De ter aquela alma de sacrifício desleal,
Ferrar os dentes na pele enquanto algo dói
Para me sentir vivo, para saber que era cigano.
Gostava de me sentir cigano,
Para ter a alegria no coração que rejubila de saudade
Poder louvar as árvores e arbustos mor
Porque seria feliz de pão e água na mão
De abrir os braços, e gritar a temperatura corporal.
Gostava de ter atitude de cigano
Para saber dançar com o corpo escorrido em suor
Para agitar a tristeza de forma rarefeita
Para ser aquilo que não sou.
Eu, poeta destemido, hoje quero ser o cigano imundo.
domingo, 27 de abril de 2008
Tenho um amigo
Ela disse: I put a spell on you.
Ele disse: me too.
Só que ela era melhor feiticeira
e o feitiço dele já desvaneceu.
E ainda nenhum morreu.
E a perspectiva já não é igual à primeira.
Perguntei ao meu amigo qual era sua história e ele explicou-me que era simples. Tinha tido alguém na vida dele que era perfeita e ele era perfeito também para ela. Ele era feliz porque apesar de imperfeito era perfeito de qualquer modo. Mas um dia isso mudou, ele deixou de ser o melhor, deixou de ser perfeito, deixou de ser emproado e convencido, porque não vale a pena sê-lo quando ninguém nos confirma o que pensamos, e afaga o ego. E então, contou-me ele, quando deixou de ser o melhor, quando passou a ser só convencido (mas ele já sabia que o era, não precisava de ser recordado, precisava de ser corroborado), quando deixou de ser convencido e realista para passar a ser só peneirento, ele foi-se embora, mesmo com o feitiço no activo. Isto contou-me ele. Que forte, eu não era capaz.
Manobras de Circo

Fiz tudo à minha maneira
Derramei-me à minha maneira
Quebrei-me à minha maneira
Apaixonei-me à minha maneira
Chorei à minha maneira
Senti o chão à minha maneira
Criei o meu circo à minha maneira
Mirei-te à minha maneira
Suspiro à minha maneira
Casei-me à minha maneira
Sou eu à minha maneira,
Adormeço hoje à minha maneira.
A estupidez,hoje, É A MINHA MANEIRA!...
sábado, 26 de abril de 2008
Eu vi mas não agarrei

quarta-feira, 23 de abril de 2008
Razumen

O entretanto é a minha íris preferida. Porque é milagre e porque os começos estão sempre longe e os fins perto demais. Digam o que disserem, mal escrevam o que ousam disfarçar, mas concordem comigo pelo menos nisto. O entretanto é o que nos faz pessoas e os assuntos mundanos estão na ordem do dia.
Deus queira que o meu lugar ainda não tenha mudado de lugar. As cadeiras são poucas, entenda-se, mas o tempo é ambíguo e não tem dimensões certas. Se a rotina é inimiga, também o tempo traz tantas dúvidas com ele e ninguém o compreende. Incompreensão é coisa que lhe serve; tudo o resto é resto. Restos não deveriam existir sequer no dicionário, quanto mais no prato. E eu continuo na balança do não saber o que sentir e não saber o que escrever. Ando aos tombos, neste entretanto, mas feliz por ter carne e ossos; e sangue, e veias, e músculos, e narinas e bastonetes e cones nas retinas. Deus queira que os que mais amo sejam felizes - e o meu lugar, que não mude de lugar.
Sou um pássaro desligado do ninho e de asas disfuncionais. Continuo a querer ser pássaro, por poder ter a sombra e a luz toda em mim, quando não chove. Ânsias de ser mais forte, acolá, onde os Grandes são relembrados. Ou pelo menos, ter um filho que reconheça a minha eternidade.
Entretanto, as ramagens estão a secar. As veias não correm como antigamente. Não tenho um olho mais claro que outro. Os brilhos fugiram todos no comboio sem paragem terminal. De vez em quando, mandam-me cartas de prisões e falam-me de piós e obras bastardas de loucos em Jericó, nada com muito sentido nem direcção; não lhes respondo, porque tenho medo de correias.
Nada é o que parece e ninguém se lembra disto. Mas somos pessoas, devia bastar-nos; entretanto, os guarda-chuva partem-se e dão vez à última noite de amores impossíveis e,por isso mesmo, eternos.
No meu mundo ideal, os galhos não se partiam e o sangue era só nosso.
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Madrid/O maior espectáculo do mundo (revived)/Eu e eu (e tu)
eles vão estar lá.
Acolá ou em Calcutá
eles vão estar ali,
na situação, comigo.
Não é esse um dever de um amigo?
Coisa gira é não fazerem por dever,
coisa gira é fazerem por querer.
____________________________________________________
Aquele palhaço que sempre divertiu as pessoas, continuará a diverti-las, até um dia...
Se perguntar se as pessoas me ouvem, me vêem, me sentem, elas responderão que sim. Mas se eu me calar, se eu desaparecer, se eu deixar de tocá-las elas exigirão o meu regresso, não importa se estou doente, cansado, mesmo a morrer, não importa. Elas necessitam de me consumir. Para elas sou um sonho, eu serei o que elas me sonharem, eu poderei ser poeta, rei, amante, tudo, desde que as pessoas o sonhem assim.
E eu sonho que elas me amam, que se importam comigo, que realmente me ouvem, vêem, sentem...
Se algum dia puserem a vista num melhor palhaço que eu, abandonar-me-ão e estarei entregue a necrófagos. Isso é uma certeza. Até lá, eu e o meu público vamos sonhando mutuamente. Eu sonho que eles me amam. Eles sonham as suas fantasias em mim. Enquanto tiver forças, podem consumir-me como quiserem, usar-me para o que mais fantasiarem. Neste mundo quimérico é o único recurso que temos. Sonhar. Fingir ser real o que mais ambicionamos que o seja. E como palhaço, terei com certeza uma grande plateia sempre a aplaudir-me, nunca estarei sozinho. E, contudo, quando estiver sozinho, irei reparar que estou mais acompanhado.
Esse palhaço sou eu.
Conseguem ouvir-me? Conseguem ver-me? Conseguem sentir-me? Claro que sim. Conseguem compreender-me?...
Um dia, o palhaço apaixonou-se, o seu amor era o melhor porque provinha do sonho, maldito e bem aventurado sonho que prendeu o palhaço nessas correntes férreas, as do amor. Ele não podia possuir o seu amor, era demasiado feio, coxo, desengonçado, era demasiado palhaço. Mas o seu amor era perfeito porque era sonhado.
Por vezes, de noite, escapavam os dois amantes do mundo, corriam pelas nuvens, em direcção à lua cheia, nela beijavam-se e descansavam, e depois, subitamente, ela desaparecia. Onde se metia a sua amada que tanto amor lhe tinha dado, que tantas carícias lhe tinha dado, que tantas promessas lhe tinha feito? Desaparecia todas as noites, no mesmo momento, depois de se beijarem na lua. O palhaço não compreendia que esse amor era impossível porque era apenas sonhado.
Esse palhaço era eu.
Um dia, o palhaço irá cansar-se, não irá saber lidar mais com a pressão da plateia sempre exigente, sedenta por novos truques, à espera que cometa algum erro para rir da desgraça. Não irá também aguentar mais a sua espera pelo amor e não conseguirá nunca sair do vício de sonhar.
Quando o palhaço se cansar procurará um reino afastado, com uma árvore que sirva de forca e sonhará para sempre ali pendurado com um sorriso macabro e o corpo oscilando ao vento.
Esse palhaço serei eu.
Um dia, li um texto de ma colega de turma. Ela dizia que todos usamos uma máscara. Acho que nunca me esquecerei de algumas frases desse texto. Eu admito, uso até mais que uma máscara. Finjo que sou feliz, que sou inteligente, que sou interessante, sábio, amigo, mil e uma coisas, quando no fundo sou só um palhaço. Todos usamos essas máscaras para que os outros sonhem que somo o que a máscara nos mostra. O que mostra a tua máscara?
Que valor têm realmente as máscaras se nunca seremos o que representam?
À noite retiro todas as máscaras e sou só um palhaço infeliz. De dia, posso ser feliz, inteligente, interessante, sábio, amigo, mil e uma coisas, mas só com as mascaras colocadas...
Esta rotina cansa-me e o meu único escape é o sonho. Em sonhos posso ser rei, poeta - ah como eu gostava de ser poeta - amante, posso voar junto às baleias, o céu pode ser cor de rosa, posso até ser livre!
Fora o sonho, sou só mais um palhaço.
Um palhaço que um dia se enforcou.
Eu e Eu (e tu)
A partilha da própria vida com alguém:
- O que tens aí?
- São coisas minhas…
- Estás a pensar em quê?
- São pensamentos só para mim…
8/3/2006
Anos volvidos
e nada mudado...
o palhaço não falha
o palhaço não falhou
o palhaço não falhará
Figurantes

Somos todos comuns. Cada vez somos mais iguais
Cada vez há menos originalidade
Cada vez somos mais muros de cores semelhantes
Cada vez mais há menos sorrisos
Cada vez menos cheiramos a saudade
Cada vez menos ouvimos a saudade de uma guitarra só.
Somos todos comuns. Deixam-nos ser empecilhos
Deixam-nos ser reflexos de uma tristeza estampada
Deixam-nos entender a morte alheia
Deixam-nos cair a todos desta arca velha
Deixam-nos ver a pobreza das mãos cansadas
Deixam-nos tocar um céu verde de inveja.
Somos todos comuns. Gostamos todos da língua alternativa
Gostamos todos de saborear a parede branca
Gostamos todos de fazer juras sem fundo
Gostamos todos de olhar pela janela vazia
Gostamos de perder a razão, porque somos inconsequentes
Gostamos de um bom desafio...O impossível.
Somos todos comuns. Dizemos que somos mundos tresloucados
Dizemos que queremos a câmara da terra
Dizemos a todos que perdemos a razão,
Dizemos todos que o cansaço é nosso dono
Dizemos que gostamos de fugir todos aos holofotes da fama,
Dizemos que não gostamos do reflexo daquilo que somos.
Somos todos comuns. Todos queremos a fama,
Perdemos a noção de verdade imparcial
Transformá-mo-nos em tracção para chão imundo
Queremos coisas que não temos, mundos distantes.
Somos todos comuns, pintando em telas pretas a nossa sorte
Somos todos comuns, somos Tristes Figurantes.
domingo, 20 de abril de 2008
Semi

quinta-feira, 17 de abril de 2008
&c
Nota-se quando escreves com alma, com coração e isso tudo e adereços. Eu noto que não me conheces. Aprendi hoje que não é só com a morte que, Mais tarde ou mais cedo, vai ser tarde demais. E logo quem, a menina que aprende, a menina que não quer aprender, a menina que se cansa de brincar mas também não quer aprender. Os números deviam ter um fim, realmente. Não é por ter saudades que me torno menos gente. Não é por seres gente que tens o direito de erguer muralhas. Não é pelas muralhas que tenho medo, é pelo que está fora e dentro delas.
Não sei falar de amor, tenho mãos inúteis. Todo o meu Futuro foi passado lá atrás. E hoje morro, não porque fica bem morrer no final da carta, mas porque preciso de uma porta que entale menos, que entale menos e não doa, que não doa e desapareça, que desapareça para que eu respire fundo e a chuva seja só um pouco menos ímpia nos meus dias. Devolve-me as estrelas.
Um dia hei-de escrever coisas belas e poéticas, que sejam belas e poéticas por elas mesmas e eu seja só um meio para que elas cheguem ao seu fim.
Carta de um louco

Traí-me a mim mesmo
Estraguei a minha vida ao questionar o saber certo
Atirei-me pelo precipício a baixo, e não vi que não haviam barreiras
E há algo em mim que me consome, paredes que se fecham.
Estou convencido que é apenas demasiada pressão para mim
Lixa para a minha pele,
Porque confundo o que é real com a minha estupidez,
Retiro-me para a minha morgue.
Rastejo por estes corredores a direito
Traio até o chão que já não piso
Morro certamente por não achar que valia a pena,
Mostrar afinal o que era, sem rodeios.
Morro. Vou morrer.
Culpa estúpida de quem vai morrer,
Mas a verdade é que gostava de rectificar,
Por isso, desculpem-me pois então
Porque para mim é tudo demasiado irreal, e apesar de tentar
Tudo se desmoronou à minha frente,
E é por isso que caio, para perder tudo o que não tenho.
Cheiro a chama da morte, porque novamente já nada o é
E no fim de contas, interessa-vos que me vá
Que cuspa o sangue dos murros que levei, com razão,
Que vos deixe. Não trai a vossa confiança,
Apenas a tua e a tua, e a tua.
Sou sincero porque digo que quero morrer.
Quero porque sei que mereço, sei que não estou convosco vivo
Que a minha melhor parte já há muito morreu.
Gostava que este momento fosse acompanhado por teclas de piano
Porque empurrei tudo o que tinha de bom, meti à beira do prato
Para enfatizar o drama, coberto pela neve das cinzas
Porque este é o meu último dia
Peço para que não chorem, não mereço tais lágrimas.
E eu só gostava que não se sentissem assim
E eu só queria que estivesse vivo para te testemunhar
E eu só desejava ter sido diferente.
Consumi-me de raiva por ter sido anormal
Quando já nada era certo para mim
Gritei e lá fui eu, ribanceira abaixo
Qual carro descontrolado, seu quem o guie.
Não ando, rastejo
Não penso, tenho medo
Não tenho realidade, sou híbrido.
Algo me trás à superfície, e estou envergonhado
Por isso chega a hora de me ir, de perder-vos de vista
Porque a morte salta em minha direcção,
Vem buscar a minha triste alma de pecador
O reflexo do desespero de quem foi algo que não era.
Adeus.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Fogosamente

Arde fogo na lancheira vazia
Mortas as cinzas a seus pés
Escaldadas as palavras que o descrevem
Quente o seu coração.
Arde fogo nas mãos de quem o toca
Os olhos que o completaram são claros, cor de mel
Caracóis ardidos pelo som das cordas.
Arde fogo, fogo arde
Amanhã serás cinza
Hoje és corpo de gente, pretas as tuas acções
Objecto de ódios e amores.
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Kind of sweet

Perde-mo-nos
Neste silêncio que invadiu
Nas horas que tocam os ponteiros
No estilo de roupa que se trocou
No tempo em que não nos vemos
Agora que o sol se apagou.
Encontrá-mo-nos
Agora que cheiraste a brisa deste vento abrasador
Que viste que o céu é arma que me deste
Quando reparaste que a paciência estava de volta
Porque vasculhaste gavetas de memórias
Assim que soubeste que eu estava aqui.
Sorriu
Porque assim te mostras
Porque estou em paz com a mente
Assim sinto a vontade de te beijar
Porque o amor afinal não acabou
Porque a vontade não é cega, e a tristeza ficou surda.
domingo, 13 de abril de 2008
Fechada para Obras

quinta-feira, 10 de abril de 2008
Sem lamentos

Chove a cântaros. Chove para o chão,
Pela colina acima e abaixo,
Pela face de uma abelha,
E eu, eu mordo a lágrima que se confunde com uma pinga de chuva.
Toca o mendigo debaixo com as cordas da guitarra ensopadas
Olhando para a poça em frente
Sentado numa caixa de papel desfeita. Mundo desfeito o seu.
Molho a face para sentir que estou vivo
Trinco aquele teu sorriso que me conquistou. Que não o percas.
Inundam-se as arestas dos cantos redondos desta casa,
Fogem a pés juntos os caracóis, para dentro da sua carapaça,
Molham-se as janelas inexistentes do carro abandonado
Esmeram-se as gotas por me tocar.
Não te esqueças de todas as coisas que te escrevi naquele papel,
Estranhas palavras, é certo. Anjo sem asas,
Toupeira de asfalto, bola de sete bicos, por entre as tempestades,
Paisagens descobertas pelo ruído do desabamento.
Tudo é novo, gasto e descoberto
Debaixo desta chuva de lágrimas e desabafos
Tudo fica humidamente seco
Tudo é a debandada do que faz sentido num mundo incrivelmente
E fantasticamente seco de chuva sentimental.
terça-feira, 8 de abril de 2008
Redenção

Com o olhar erramos. Com o coração perdemos. Com a má vontade somos derrotados.
Hoje fui enxovalhado por mim mesmo, perdi a razão. Estúpido fui ao acreditar que me vingar faria sentido, que bastaria isso para que acordasses. Estúpido, repito.
Levaste com uma bala no peito, e ainda estás a restabelecer as forças. Não te censuro, porque também já as levei, balas diferentes, está claro, mas doeram.
Perder a razão, é para mim como se me tirasse o chão de debaixo dos pés, e eu fiz isso a mim próprio. Novamente, estúpido. A minha anormalidade está ao ponto de pensar, que te conquistaria de novo só falando, só te mostrando que tinha razão em alguns pontos. Ter até tenho, mas que interessa isso agora?
Mando um murro na parede, e fico a sangrar aqui por cima do dedo, aqui bem junto a minha pele. Não é nada esta dor quando comparada a aquilo que sentes não é? Sentes-te marioneta barata, sentes que era a estupidez se alguma vez me perdoasses... Contudo, de novo repito, já fiz algo para merecer essa mínima consideração... Que estúpido!
Arrependo-me pois claro, mas que queres, eu gosto de expor o meu verdadeiro eu, que por vezes tem destas coisas. Como disseste, já não é a primeira vez. E a culpa foi sempre minha. Minha. A dor, tua, a maior, está claro.
Quero te dizer que lamento. Lamento desde a alma, até à ponta dos dedos.
Hoje sou estúpido, amanhã, bestial não serei.
domingo, 6 de abril de 2008
Desbarato
Chama-me fútil, mas a vida tem de ser bonita, sob pena que não se olhe duas vezes para ela se faltar a este cânone.Chama-me mentirosa, que faltei quando te quis presente, eu confesso; toda a peça foi caluniada. Como não, não sendo eu Calipso?
Chama-me alucinada, mas o mundo senão alucina não deve nem merece ver mais sol ou lua a nascer. Pena de morte, para já, para ontem.
Chama-me meretriz em prestações, porque eu sei, eu sei que dou partes de mim ao desbarato e peço muito em troca (dei as mãos ao tempo, as pernas a Deus, o ventre ao talento. Nunca beijei nenhum destes, por respeito à profissão e às contas do final do mês). Mas peço muito.
Chama-me ladra, que roubei toda a pureza que era eu e fui macabra. Mesmo assassina podereis chamar-me.
Chama-me fútil, mas não te atrevas a pisar este chão sem uma vénia à vida ( se bonita, sem sofrimentos, sem prisões, mundos como ontem, tempo, Deus e talento sem inocência alguma, no seu significado erudito). Faz o que quiseres, mas agradece no fim; porque os agradecimentos também se lêem e eu só sou isto que sou porque peço muito.
(Até hoje, não me arrependo). Obrigada.
sábado, 5 de abril de 2008
Pontuação de um momento

Sacrifício. Ponto. Dor. Ponto final e parágrafo.
Um último bocejo, um último toque antes de partir, virgula,
Olhar para trás, ponto e virgula; ver o que fica para trás, ponto.
Agarra-me antes que caia daqui para baixo,virgula
Olho para ti, ponto. Sorris, ponto.
Analisando esta pontuação, foi o momento parado,
Mas sei que foi em locumução, quando me agarraste em ti
Quando a primeira aparição te deu boa impressão,
Também achaste que não era agora. Ponto e parágrafo.
Não me arrependo porque sorri
Escrevi os verbos que inalaste e que hoje digeres
Não vou longe porque a minha colónia deixa o rasto que seguirás
Ponto.
Terra,virgula, o sitio em que queres ficar
Porque sonhaste ser terrestre ainda agora sorriste, já angustias
Calma, ponto. O ponto indica a pausa para respirares
Um novo sentido de partida.Ponto.
Vou ali, ali à esquina só por um pouco, pelo meio da calçada
Mas deixa-te ficar aí que ainda não acabou,virgula,
Mal começou.
Venho já, reticências ...porque estou reticente em dizer que não te amo.
10 minutos
ileso de todo o malefício
levado a cabo pelo pecado em
intima ligação com o Diabo, eu
peço a Deus para que ele exista,
abrindo-me portas ao nosso inferno combinado...
A
m
o
-
t
e
.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Carinhos do Sol
Ficámos naquela praia de pedra calçada
Ficámos presos naquelas cadeiras pela inoperância.
Foi hoje neste dia de Sol, dono de mestrado
Foi à bocado quando estávamos relaxados da vida
Foi quando todos aparecemos, quando depois, dissemos adeus.
Dia de mercúrio em que o sal ficou espalhado pela mesa
Dia em que o almoço foi demorado, criado pela insistência
Dia em que o convívio foi longo, sem jeito.
Hoje fomos todos normais, como a vida deve ser
Hoje desistimos de ir a aquilo que não queremos
Hoje fomos pequenos rebeldes, grandes relaxados.
Tentei te ligar quando ia para casa, mas não atendeste
Tentei te dizer as saudades que tinha tuas, da tua voz
Tentei, tentei, e voltar a tentar. Não deu.
Talvez valha a pena assim os dias passados sem problemas
Talvez seja mesmo isto que queremos
Talvez mereça pensar que a vida é pobre, nós é que a enriquecemos.
terça-feira, 1 de abril de 2008
Doce cegueira

Rostos disformes e sujos
Olhos que já não servem para olhar
Narizes escarlate em tamanho XL
Bocas escurecidas,
Dentes em falta e repugnância como cartão-de-visita
Sujos, empoeirados,
Confundem-se com as paredes velhas em final de vida
Acabarão por desabar qualquer dia sem que ninguém dê muita atenção.
Mãos gastas de tanto vaguear
de tanto embalar o vício entre os dedos
Mãos doridas, fim-de-viagem de trocos a mais na carteira
e peso nas consciências
Mãos inchadas de tanto esperar por dias melhores
que é como quem diz mais verde e vermelho em excursão
entre as mãos e as bocas.
Não olhes! Não pares! Continua como se nada fosse!
Bocas-furor-obsceno-de-palavras-a-meio-gás;
porque os dias de viajante nómada sem rumo roubaram-lhes a energia
e a dignidade
Bocas-abrigo de histórias de desdita e ilusão
sem interlocutores, sem audiência, sem aplausos no fim
Bocas, pontos de partida para mundos inexplorados
Não olhes, já disse! Continua a andar! [Pode ser que desapareçam.]
Olhares vazios, cansados de tentar que se entenda
que as coisas mais importantes não se dizem
Olhos-testemunha do desfile de hipocrisia
a que assistem todos os dias
Olhares-desesperados
Que bradam em vão pela volta de impossíveis
[Estão a mais e incomodam! Pode ser que desapareçam...]
Os dias correm indistintos, o tempo não existe
Só o verde e vermelho interessa
Entre os dedos das mãos e as bocas imundas
São como uma nuvem cinzenta antes de uma tempestade indesejada
Andam em bandos desorientados
com os corpos inchados, sombrios e suados
da longa caminhada
Cheiram a doença e a nojo
Cantam alto para que se perceba que existem
Deambulam de um lado para o outro
Espalham um fedor insurportável
E não entendem que incomodam
Que enojam
Que estragam o dia a quem passa.
[Só espero que não se cheguem perto]
Vivem com a terna promessa de uma longa catalepsia
-prenúncio de descanso eterno...
Mas os saltos altos a ressoar no chão, bem junto ao ouvidos,
acabam por despertá-los do doce marasmo
e a vida continua...
Até um dia.
Entretanto, não olhemos...
humanos
Tenho um nome fictício
