quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Lembra-te

Não sei o que hei-de pensar na hora da morte
No desabafo de contentamento, no mortal silêncio do até já.
Perdi a vontade de dizer o que é, uma pequena luz
Um candeeiro de estrada sem fundo e mundo
De cordões atados em cada ponta, feita de sola de sapato.
Estou dentro deste buraco de condão.
É estranho saber o que se pensa realmente, nesse desassossego
Nessa pequena vontade que é a tua.
É o definitivo adeus de nós. É a minha morte, não a tua.
É a sensação de desprezo do mundo, a minha e não a tua.
Perceber finalmente o porquê da vontade de desistir, a tua e não a minha.
Quero te gritar sons de alarme sensivel, quero que me vejas em ti. Não.
Ainda ontem o éramos, e hoje, bem que infinito sonho desprezivel,
Deixámos de o ser, porque te falta a vontade, e a mim,
Caro cobarde miserável de calças routas,
A sensatez de te ter preservado.
É assim este mundo de pequenas fadas da morte,
O meu, e não o teu.
Porque gritaste, se apenas querías sussorrar?
Porque me disseste que eras minha, quando afinal não te perdias em mim?
Crianças opostas, de variantes condais diferentes
Sou eu e tu, por aí perdidos nas vontades, sem saber quem nem porquê.
Hoje foi aquele o dia de saber a que sabe a tristeza,
De focar a linguagem, e articular o olhar para o fim.
Vemo-nos por aí, nas pontas do mundo.
Eduardo Coreixo


domingo, 26 de outubro de 2008

Etapas

Queres te perder na vontade? Então segue-me e saberás o que é a matéria destrutiva.
Queres saber o que te posso mostrar? Põe-te na fila da vontade destrutiva.
Queres ver o que é este mundo? Pega num cigarro, a tua morte destrutiva.
Queres criar a tua imagem? Se queres uma como a minha, então será destrutiva.
Queres amar o próximo? Põe protecção, porque a vida será destrutiva.
Queres crescer na sociedade? Deita-te e aproveita a briza destrutiva.
Queres saber o que é um dicionário? Tudo o que sei é a palavra destrutiva.
Perdi-me.
Toquei aqui esta palavra.
Que engraçado, não é?
Mostra-me que estou certo quando digo que és tu.
Queres saber o que é isto? A vontade de estar contigo, que é destrutiva.
Eduardo Coreixo

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Déguisement


Eu sou muito mais do que isto e não sei explicar o quanto mais eu quero ser.

Talvez seja da nossa Natureza - isto que nos faz rasgar roupas e veias a quem passa por nós nos transportes públicos todo sorrisos, cómodo e satisfeito com a vida, quando a vida não foi feita para ser um consolo e uma paz- na- terra- entre- os- bichos-homem. A vida que foi feita para ser escrita, pelo menos. Talvez seja isto a nossa Natureza. A de odiar e chorar e a raiva - e amar mais e não haverem mais lágrimas nem raiva, salvas aquelas que ainda escrevo mendigamente, à espera de sonhar uma e outra e outra vez pelo dia fora que me gritas, sussurras e desfazes: Eu amo-te, mas pouco. Soube a tanto, nos dias que correram. A tanto. Correram.


Talvez eu minta. Talvez eu diga que não existo mais para que renasçamos sem público. Sem fazer o dito teatro. Na minha casa perfeita não existem cortinas e, para o mais, o veludo preto está caro. E eu não quero, eu não permito, que me entrem pelo camarim adentro a perguntarem como é que é a coisa, aquela vertigem que nos faz sentir pequenos quando estamos felizes, como é que é agora que descobriste terra nativa desconhecida, tão rica e selvagem, como se quer e se deseja?...A resposta que esperam de mim nunca é a resposta que consigo dar. Eu não posso nem permito ser previsível. Tenho medo de alturas. Fui velha e sou criança. Adoro o perigo das navalhas e do sangue.


- Quê?

- Entrada proibida.


A nossa Natureza.

domingo, 19 de outubro de 2008

Protejo-te através da preguiça

eu nao quero perder tempo com acentos,nao quero saber o que pensam se lerem isto assim. hoje estou apatico,e isso.
Qual a diferença para mim, entre escrever com e sem acentos, ou assentos?continuo de rabo frio, porque já passou a hora de deitar, por isso, não me vou preocupar, entendes?quero lá saber se les isto bem, que me rala?passo o tempo a desejar que percas um minuto, que te rendas a vontade de dizer por dizer, e amar por amar, quando apenas tudo tem que ser complicado, e elaborado. nao e suposto o amor ser assim?sem desamores, sem complicaçoes, sem acentos que o tornem mais elaborado? eu so acho que nao valorizamos a vontade que ha em desejar que tudo seja natural, e que tudo seja como foi antes de tudo. esmorecemos...enfim.
hoje estou assim, desculpa, nao sei que te hei-de dizer. sei que no meio disto tudo, ha sempre algo que se aproveita, como por exemplo, estou sempre a por a pontuaçao, as virgulas, as reticencias, os pontos de interrogaçao, nao estou?...entao presta atençao a estes pequenos pormenores, que demonstram que efectivamente me preocupo, e que mesmo preguiçoso, tenho sempre em mente as tuas necessidades, os teus desejos...nao so neste texto, em toda a tua vida.
entende que o amor nao e feito de pontuaçoes, de acentos, de assentos, de palavras caras...e feito de sentimento, de um corpo de texto conciso e sentido, de armas nas maos, prontas a disparar contra tudo o que se meter no seu caminho.
hoje estou preguiçoso, e a falta de letras maiusculas de de acentos e assentos, nada mais e, que nao uma metafora para o nosso momento.
amo-te, e daqui sairemos vivos e alegres.

Eduardo Coreixo

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Laivos de Ternura

Verde… Aquele mesmo verde que me encantou na primeira vez que te vi. Sinto falta de olhar para ele nos teus olhos.

-Tens lume?

Silêncio. Os teus olhos prendiam-me e falavam comigo.

-Desculpa mas… tens lume?

-Sim, claro. Desculpa a minha distracção! – respondi-te.

Tenho uma paixão pela voz sublime de Simone de Oliveira e tinha levado para a faculdade uma velha revista que encontrei em casa com uma entrevista da cantora. A revista era dos anos 80. Reparei que a olhavas com curiosidade, depois de teres acendido o teu cigarro.

-Encontrei-a no meu sótão. A minha mãe tem várias por causa das receitas. – disse-te, apontando para a revista.

-Só estava a tentar perceber quem está na capa.

-É a Simone de Oliveira. Vem aqui uma entrevista por causa do lançamento de um disco dela da altura. Mas, desculpa, nem te perguntei… Queres-te sentar?

-Já agora, agradeço. É interessante estares a ler um artigo tão antigo dela.

-Confesso que sou completamente fã da sua voz.

E rimo-nos os dois. Eu ri-me pelo que os teus olhos transmitiam: curiosidade. Tu riste-te porque fiz uma cara de tolo quando te confessei a minha paixão.

-Sabes… Do pouco que conheço da sua carreira, vejo-a como uma sereia. – disseste-me.

-Uma sereia?!

-Sim, uma sereia. Vai navegando pela vida com classe e graciosidade. Quando os mares estão revoltos, ela consegue dar a volta por cima de qualquer tempestade sempre com uma enorme dignidade. E depois… Depois há aqueles olhos verdes. Olhos da cor da maresia.

-Nunca tinha pensado nisso dessa forma mas, realmente, tens razão.

E depois, todos os dias te vinhas sentar na minha mesa. Convidei-te para um concerto e foste comigo.

Muito tempo passou. Um dia, foste ter comigo à praia, numa bonita tarde de Outono. Estava deserta. Apenas um casal a brincar com o filho se encontrava na praia.

-Acabou.

Silêncio.

-Vou partir para Nova Iorque. Não sei quando volto.

Silêncio. Tu ficaste ali comigo a olhar o mar. Passados uns minutos, levantaste-te e nunca mais te vi.

Pus o meu mp3 a tocar e fiquei a ver a criança brincar.

“Esta palavra saudade
Sete letras de ternura”

Que ternura olhar para aquela criança a sorrir, enquanto brincava com o seu balão amarelo.

“Sete letras de ansiedade
E outras tantas de aventura.”

De repente, a criança começa a chorar enquanto corre para os pais. O balão estava roto pois encontrava-se quase vazio.

“Esta palavra saudade
Sabe ao gosto das amoras
Cada vez que tu não vens
Cada vez que tu demoras”

Via-me espelhado naquela criança. Ele refugiava-se nos braços dos pais, eu refugiava-me naquela voz, naquela cantiga.

“Por termos sofrido tanto
É que a saudade está à vista
São sete letras de encanto
Sete letras por enquanto
Enquanto a gente for viva.”

(Jorge) Filipe Ressurreição

Dreamless (Lucifer & Lilith) - Moonspell




They thought that love was sacred
Until they met the desecrator
A sea of poison came in between them
And there was red on the ground below

They can not breed
Bound to never rise
Their lies will be repeated
Forever

Now they’re dreamless
Straight into the dark clouds
Never to come back

They thought there’s more
Than meets the eye
In face of beauty all men are blind
And the gates opened to let her through

They can not breed
Lost in the crimson skies
The nights in our heats
Will last forever

Now they’re dreamless
Straight into the dark clouds
Never to come back

Now they’re dreamless
Forever

sábado, 11 de outubro de 2008

Sad Statue

"You and me will all go down in history,
With a sad Statue of Liberty"

Ah pois, é verdade. Esta é a verdade, façamos o que fizermos neste blog ou em qualquer outro lado. Espero que não, mas por agora, esta é a verdade.

Então, limito-me a não me preocupar com a aparência, tenho um ensaio Sobre a Liberdade para ler. Muito mais importante do que fazer a barba. A aparência vai connosco, mas o trabalho poderá um dia ficar, se bem que é provável que não. Limito-me a ser como sou. Tento. Normalmente quem tem a certeza que o é, é quem usa mais máscaras. Mas enfim...

Sim, colega, despertaste a luzinha que representa a ideia genial. Se sou palhaço, porquê fingir que sou depressivo? A depressão reside nas entranhas, não é preciso mostra-la cá fora. A depressão guardo para confessar aos amigos.

Eu não sou dark, nem bright (uso esta palavra de propósito), mas talvez um dia seja lido e recordado por alguem, leia-se, ente querido, leia-se, amigo. Talvez alguém um dia olhe para um ficheiro do word, ou para um papel, e diga: "sempre a fazer palhaçada!".

Hoje é outra vez dia de teatro. E amanhã é outra vez dia de teatro. E dia após dia vou tentando representar menos. Até ser eu. É verdade, já me tinha auto-intitulado antes, e ainda bem que me recordas disso.

Tinha um texto que dizia: "Sou um palhaço". Amanhã é dia de levantar cedo. É dia de fazer teatro...

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Probabilidades

Ela quería ser uma menina grande, de pequenos recursos
Aumentar a sua vida de papel,
Enfrentar a vida de desejos e esperanças, nada de danças de percursos
Pintar a sua pequena estrada, com o mais fino pincel.
Passou o tempo a imitar as vaidades ao espelho,
Porque nada podería esperar
O tempo estava ali, cansado de ser chamado de velho
Tudo o que ela quería, ser menina grande, para que todos pudessem olhar.
Encontrou dificuldades, porque o seu nome não era verdadeiro
E não podia passar o dia sozinha, não estava satisfeita
Porque quando teve tudo, tudo não foi derradeiro
E foi aí, que a sua vida a deixou por demais desfeita.
Pequena menina, agora mulher de precisões
Teve que se assegurar que a fortuna que via, era a que precisava.
Agora a última moeda que tinha era a de todos os tostões
Réstias de saudades que teimava, deixar o seu mundo cheio de raiva.
Tudo isto teve o mal, e o seu personificado bem
Que a sua vida, as suas duas vidas a apoiaram é uma certeza
Porque qual novela brasileira, elas eram o seu trém,
O meio de sobreviver, puma esquiva de movimentos de destreza.
Hoje olha por si em sua volta, por entre o seu determinado coração,
Nada se torou fácil, mas tem as suas constelações em sua volta,
Porque o vento não lhe limpou os pés, não os tirou do chão
Porque não se deixeou exasperar pela maldita revolta.

Criança crescida pelo tempo que não demorou a dar aquilo que queria,
Caminhou a direito, por entre caminhos de rocha escorregadia
Toda a sua vida foi de vaidades varridas da sua teimosia,
Hoje é mãe, mulher criada à força, tudo porque não desistiu de tentar a sua coreografia
A dança que quis mostrar a todos que a víam na periferia.
Os seu diamantes estão no seu interior,
A sua bravura nos seus actos,
A paixão mostra-se no seu dia-a-dia
O sorriso, constantemente no seu rosto de trabalho.
Eduardo Coreixo