sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Clichê

O que eu aprendi no meio disto é que nós sobrevivemos a tudo, mesmo que não queiram, mesmo que por vezes façamos birra e não queiramos, mesmo que alguns dias pareçamos mais mortos a fingir que somos vivos, naquela de dar o exemplo para que acreditem que somos imortais. Sobrevivemos a rasgões, facadas, cinismos, nódoas negras - corações ao alto e fé em Deus; a pesadelos, ao estranho mistério que são as gereberas na vez dos girassóis, que são cadeiras vazias na vez dos fantasmas noctívagos, que são tu e eu com o mundo no meio, que são as mãos mortas, desmotivadas e o altar que merece o silêncio, que é a língua que desaprendeu a fala mas ainda pensa, pensa Se vocês soubessem o que eu sei. Aprendi que somos felizes com muito menos e que não é a literatura que salva, meus senhores, não é ela o novo Messias.

Viva o vento nas ruas, os erros ortográficos e a morte aos noventa anos.



(deixei de fumar.)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Walking Around

Hoje apeteceu-me ler Neruda :

"Acontece que me canso de meus pés e de minhas unhas, do meu cabelo e até da minha sombra. Acontece que me canso de ser homem.

Todavia, seria delicioso assustar um notário com um lírio cortado ou matar uma freira com um soco na orelha. Seria belo ir pelas ruas com uma faca verde e aos gritos até morrer de frio.

Passeio calmamente, com olhos, com sapatos, com fúria e esquecimento, passo, atravesso escritórios e lojas ortopédicas, e pátios onde há roupa pendurada num arame: cuecas, toalhas e camisas que choram lentas lágrimas sórdidas."

Pablo Neruda

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

"O poeta é [genial e] um fingidor"!

o talento de Shakespeare deveria ser meu
cada vez que te escrevo a dizer que sou teu
saberia então descrever em curtos versos
a face brilhante do amor sem negros reversos

saberia então com mestria escrever
sem recorrer aos sem ti não sei viver
se eu tivesse a sua genialidade
se de Shakespeare fosse minha a capacidade

não tenho o seu poder com as palavras
saindo confusas e atabalhoadas as minhas quadras
é o ser poeta que nos distingue, levantando um senão
é que eu só escrevo a verdade e ele não.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Fazendo Sentido

Terra, mar e confins,
Palavras de murmúrio iminente num deserto.
Voam alto as sobras de um calor abrasador,
Distorcida a vista de tanto se revelar cansada
Somente a paisagem fica na mente.
Respirando ar gasto, porque nada enche este lugar
E cada vez mais perto se encontra o fim, o dele
Porque somos todos falhados, não ele.
Segue em frente, que virás até mim,
Porque nas minhas estou a sangrar da falta de salvação,
Mas vou ficar por aqui, porque me sinto contagioso,
Sendo o único lugar para onde tens que andar.
Gritas para que tudo seja branco e preto,
Seguindo até mim com esses brados, esses suspiros de vontade
Andando sob cordas de violino, fortes como a água desta paisagem
Que arrastas para trás.
Não te lembras da lembrança que procuravas?
Os momentos de paixão à chuva de raiva, que deixámos ir,
Não te agarrei vezes sem conta, porque te suportavas
Ainda que de te revejas em mim,
Tenho as mãos em sangue pelo teu esforço.
Por detrás da tua memória, eu sou um falhado,
Porque em dia de esforço inevitável, tudo isto fica velho,
Os nossos corpos frios, neste deserto de ideias,
Encontras-me pregado à parede que construiste.

Eduardo Coreixo

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Registo de (im)propriedade

Parece que já vim de tão longe
Para agora parar firmemente neste lago,
Parado, paradinho vejo a transparência da água,
Sonho pelo dia em que aí irei acima.

O futuro não são as crianças, pois é quem então senhor?
O futuro é a nossa vontade de pecador,
A esperança da humanidade no seu crer,
A capacidade de absorver o sentimento,
A nossa senda, o nosso objectivo, é o cinismo.

Olhei-o como quem não quer a coisa,
Do alto da água profunda, própria para o suicidio,
E com o olhar queimei-lhe a órbita sonhadora.
O culpado sou eu, que lhe retirei os horizontes,
E lhe mostrei a ganância.

Senhor, gostava de aprender a amar e observar...posso?
Para quê criança amada e mirada pela morte individual,
Se aquilo que deves e queres aprender é a vontade do grupo,
Que aquilo que tu saibas seja útil a alguém, menos para ti,
Deveria, e vai ser por certo, o cume da tua vida.

Gosto de te dizer que sou superior,
Que o chá só se derramou, porque ao longe tu abanaste o ar.
Vê-me a mim, criatura inóspita, aqui sobre as águas,
A apontar-te o futuro, a tua inércia
A tua ponta de seta no coração.

Senhor, afinal quem somos?
Que pergunta parva, quase imprópria de uma criança;
És aquilo que te disserem para seres,
És uma peça do puzzle em que te quiserem inscrever,
Hoje és individuo, amanhã serás propriedade de alguém.

São estas as desavenças do meu mundo.
Eduardo Coreixo