domingo, 27 de junho de 2010

deixo o blog com um sorriso

Pronto, este texto é simples:

Todo este tempo eu estive enganado ao pensar que podia consegui-lo.

Não preciso dos amigos, não tenho uma família que me apoia. Não há muita gente que me estenda uma mão. Não mereço tudo o que tenho. E agora, não tenho namorada, não farei dela a minha esposa. Não terei filhos como sempre planeei. Tudo porque não tinha razão numa guerra estúpida que mantinha com eles todos. Por causa disso, não ganhei o braço de ferro. Perdi todos.

Agora, gostaria de me despedir. Não estou feliz. Não escreverei muito mais! Isto é uma nota de suicídio. Direi adeus. Deixarei de lutar! Preciso da vossa preocupação. Estou bem. Estarei num sítio melhor. Não estarei ao pé de vocês. Sorriam para a fotografia. Nunca me esquecerei dos meus leitores.

Esta é uma carta de despedida...



















(Poderia ser a minha carta caso não fosse tão genial, e não me amasse assim tanto. Em vez disso, peço ao caro leitor que coloque as frases que estão na afirmativa, na negativa e vice-versa. Assim poderá ler a verdadeira mensagem. Obrigado e... achavam mesmo que mereciam um sorriso meu? Deixem-me rir.)

Eduardo Rilhas

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Morte do sexo na sombra


Menos conversa. Faça-se Silêncio.
Façamos todos um silêncio muribundo, pois ele morreu.

(...) (...) (...) (...) (...) (...)

Morreu aquele que nos ataca, morreu o seu inimigo
Aqui jaz a nossos pés a perfeita imitação de um ataque consumado.
Não é parado, apenas agora, mas silêncio por favor.
Apenas lentamente ele se ergueu para mostrar a sua fraqueza
E esperou pela luz de emergência do seu quebra-luz
E morreu, morreu sentado a desesperar
A exesperar pela vontade de um sinal nocturno.
Façamos silêncio.

(...) (...) (...) (...) (...) (...)

Tudo se semeia, e tudo se colhe:ventos, tempestades, mortes.
Colheu este homem o mais pesado dos frutos, a culpa
A sensação que lhe surgiu no leito da morte
Não sabendo a sua hora, sentou-se ali na sala de espera
Até que um dia a verdade, a culpa, a sensatez o devorassem.
Tudo o que plantou, está à tona da terra.
Faça-se silêncio, porque ele não quer acordar.

(...) (...) (...) (...) (...) (...)

Este é a história de um homem que não soube morrer,
Aquele a quem todos exigiram verdades e fundos
A sombra de quem um dia deixou a própria barriga ser ditadora.
Este foi um homem que soube ser homem, aquele que urina de pé
Aquele usou as calças em casa, aquele que morreu sozinho.
Esta foi a história de um animal, de um perturbador
A história de um violoncelista do desejo e prazer egoísta.
Morre arma do sexo, morre sem sentido e na luz da solidão
Morre podre e seco seu armador de arma de plástico
Morre seu artista de artes de quem merece morrer.

Esta foi a história do fim de um violador.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Palestra num funeral

Era um homem que tinha como profissão sentar-se ao lado de pessoas a morrer, ainda que com alguns meses de vida, e ouvi-las por horas a fio. A lamentarem-se, a chorar, a morrer. Este homem não era psicólogo ou psiquiatra, nem tinha, que eu saiba, qualquer conhecimento de medicina. Apenas estava com as pessoas, via-as morrer, recebia o seu dinheiro, e partia.

A sua irmã, tinha como profissão estar de pé ao pé de pessoas, com muitos anos de vida e agonia pela frente, e dar luz à luz que iluminaria os dias de agonia que essas pessoas ainda tinham pela frente. Filhos. Crianças. Esta mulher tinha múltiplas alegrias por dia, não com o seu marido, em casa, ou com um colega, no trabalho (valha-nos isso), mas antes perante o olhar de mais um infante ou infanta trazidos ao mundo.

Portanto, a única coisa em comum destes dois, era o facto de serem irmãos. E a importância da irmã para esta história, é próxima de nula.

Concentremo-nos então no homem: como qualquer charlatão ou pagante de promessas, a maioria da clientela deste homem era gente que acreditava cega e estupidamente em algo que lhes confortasse a mente, que lhes aconchegasse os problemas. Era gente de crenças maiores, que lhe colocavam a inteligência num nível menor. Chamavam-no, pediam-lhe para ficar, e a partir daí estava contratado, tinha de acompanhar o doente, até que a morte os separasse, o que para ser franco, nunca era muito tempo. Na verdade, ele não enganava as pessoas, apenas se servia delas para obter sustento. Vivia sozinho e não sabia fazer mais nada, teve de recorrer a um esquema, no mínimo de esperteza avançada, para não lhe chamar inteligência, para subsistir. Bem, os clientes pareciam não se importar. Todos morreram um pouco mais felizes, porque todos tiveram alguém que ouvisse as coisas chatas e repetitivas que os velhos dizem quando já não estão muito bem da cabeça. Não me interpretem mal, não é que o homem não prestasse atenção, ou não conversasse com tanta arte quanto possuísse na altura. Mas temos de dar a mão à palmatória que ninguém está para ouvir um velho queixar-se para além de duas, três horas, quanto mais por vezes semanas ou meses.

Um dia mais tarde, contava este homem, na sua cama, algumas das coisas que passou no "ofício". E se bem me lembro, era qualquer coisa como:

- Tu não sabes os horrores que eu ouvi contar. Gente doente, com filhos doentes, que só conhecem sofrimento na vida. Não me admira que no fim disto tudo, as pessoas chorem, que mais haveriam de fazer? Que merda de vida que muita gente teve! Uma velhota, a confessar-me que se teve de prostituir, até quase aos setenta anos, para poder pôr comida no prato da família. Setenta anos é idade de fazer Arraiolos e croché, não de andar a dar o corpo ao desconhecido. Os ossos já não querem nada connosco e os músculos já não flectem como antes. E, se ainda hoje olhamos a prostituição de lado, consegues imaginar a prostituição de idosos? E o pior: o marido é que a incentivou, por assim dizer. Porque ele não tinha emprego ou era demasiado calão ou o raio que o parta. A minha irmã sempre me disse que eu era uma besta por me aproveitar desses velhotes e velhotas e das suas vidas miseráveis mas ela não sabe metade do que acontecia. Eu ao menos, estava a tirar-lhes peso, ainda que de dois sítios: da alma e da carteira. Uma ou outra cliente queria consumir carne mais nova pela última vez, e eu como empregado, tive de executar a tarefa. Não fiques tão chocado, o que querias que fizesse? Era quase chantagem, ou era mesmo, acredita. Outro cliente, não sabia dos filhos, dos netos e dos bisnetos, ou tinham todos morrido de doença. Outro tinha perdido três membros na guerra, e ganho outros tantos traumas. Ele só chorava. Ouvia estes clientes e as histórias só contavam morte, doença, agonia, sofrimento, sujidade. Era um caos, o que eu fazia para viver, e todas as histórias estão resumidas na minha cabeça, não me lembrando já de todos os pormenores. Todas as histórias ficam, de certa forma comigo, e eu, que nunca tive ninguém, tenho agora comigo todo o sofrimento partilhado por centenas de famílias perfeitas, quando olhadas superficialmente, aprofundado no seu âmago de podridão.

Era mais ou menos isto, além dos seus próprios sofrimentos, que ele contava, no seu leito de morte, na sua cama. Eu lembro-me relativamente bem, pois este homem... bem, ele foi meu cliente...

(Saramago, morreu. Deixou-nos muito. Outros irão nascer.)