sexta-feira, 30 de julho de 2010

Encontros



Haviam antes estradas antigas
Que perderam os sentidos e os trilhos,
Que se resignaram e são terra batida
Cheias de pedras e sem dons amigos
Que façam valer uma vida.

sábado, 24 de julho de 2010

Paparazzi

Abro os olhos só para descobrir que somos todos paparazzi uns dos outros e gostamos. Nada de novo aqui, mas também eu quero dar, tanto o meu bitaite, como o meu bitate. Ligo a televisão, e a maior parte dos programas que nos fornecem para assistirmos são reality shows subvertidos à subcategoria de entretenimento. Passamos a vida a ser encharcados com as vidas ricas dos outros e desejá-las para nós. A que preço? Estaremos disposto a pagar por esse dinheiro que queremos tanto comprar? Nos meus momentos de maior fraqueza penso que sim. Inconformismo.

Mas nada disto interessa porque somos maiores paparazzi de vidas semelhantes à nossa. Os reality shows. As redes de internet. Toda a gente quer ser lida, toda a gente quer audiência. Mas toda a gente quer, também, dar audiência e ler o próximo, desde que não seja muito comprido e muito aborrecido. O ser humano precisa de histórias, como ouvi Pedro Paixão afirmar. É verdade, mas têm de ser fáceis. Vamos juntando as peças do twitter ou facebook para criar as nossas próprias interpretações das histórias dos outros. São inspiradoras e fazem-nos sentir bem connosco. E depois há opiniões associadas. Às vezes até podemos aprender, sem dúvida. Mas o que nos importa mesmo, é ver quem matou/beijou/atraiçoou/entristeceu/fodeu quem. Como abutres à procura de carne enfraquecida por algum tipo de emoção, procuramos depois ser insectos e perfurar e chupar tudo quanto pudermos e não pudermos, do interior de cada pessoa que seguimos. Se for a própria felicidade da pessoa, tanto melhor.

E depois há imagens associadas. O sorriso; o importante é mostrar os dentes certos, às pessoas certas. E os benefícios disso, surgem logo a seguir. A cara; é só uma caixinha de magia. Usamos todas as ilusões que aprendermos para mostrarmos algo que não somos, na maior parte das vezes. O corpo; um dia vamos ser todos flácidos ou mortos, portanto fico à vossa espera.

Tenho tido ganas de assassinar esta humanidade em que vivemos. Se eu pudesse...

sábado, 17 de julho de 2010

À minha (pobre) imagem


Prometi-me que a minha escrita não se perdería.
1000 homens morreram pelo preço de uma guerra imunda,
Mil vozes que se foram por horas de defesa de um ideal,
Liberdade perdida na gueraa de um submundo
Uma destreza de balas perdidas em cantos e recantos.
Hoje canto pela vossa morte,
Canto um fado de injustiça, um vaivém lento
Agora estás cá, ora estás lá sentimento desleal.
Vamos para baixo juntos, ou não sabes quem és?

Deixaram as horas passar, as mortes foram esquecidas. Continuamos a viver num mundo, em que o próprio país já não chora as almas que se foram, aquelas que ainda cá ficam a penar por aquelas que já foram.
Não compreendo a injustiça de dizerem que as guerras acabaram, quando na nossa frente nascem conflitos desnecessários.
Hoje largo uma lágrima de sangue.


Desce ao meu mundo e senta-te ao meu lado,
Dor no peito que não me passa sem saber porque morreste
Dor transparente,
Morte ardente, por dias que passaram em fios de corda.
Frágil como uma luz, terna como um recém-nascido,
Não sou o teu ardor crescente, sou a tua raiva descendente.
Tudo bem, não é o nome,é a graça de quem o tem.

Hoje tenho raiva daqueles que nos tiram da nossa casa, para depois não regressarmos, ou voltarmos sem rei nem dono. Ouço as vozes de homens e mulheres a gritar de dor, sinto-as no meu peito. Sinto o seu arruinar de coração, a sua vontade de voltar para os seus.
Hoje pensei em vocês. É convosco que estão os meus pensamentos.
Agarrei-vos.

terça-feira, 13 de julho de 2010

"What if god was one of us?"

deus
s. m.
1. Ser supremo. (Nesta acepção!, grafa-se geralmente com inicial maiúscula.)
2. Relig. catól. Cada um dos membros da Trindade. (Nesta acepção!aceção, grafa-se com inicial maiúscula.)
3. Divindade do culto pagão ou de qualquer religião não derivada do mosaísmo.
4. Fig. Homem heróico! ou de superioridade incontestável.
5. Objecto! que exerce grande influência ou grande poder.



E se deus (1) fosse um de nós? Seria branco, ou preto, ou castanho, ou vermelho? Na verdade não me interessa pensar em deus (3), pois ele não pensa em mim, nem em nós (ele contou-me ao ouvido, por entre bolhinhas de oxigénio). Lamento. Só há uns meses descobri a luz, que vinha do fundo do aquário, e comecei a acreditar com mais força, quando se começaram a suceder os milagres. Já em dois mil e oito, deus tinha efectuado alguns milagres, mas ninguém ligou porque não estavam ainda bem afinados. Então, houve um intenso treino e deus melhorou, com a idade e experiência.

E se deus só tivesse três anos para viver? Não poderia de certeza efectuar grande obra, já que Jesus (2), mesmo aos trinta e três ainda não tinha uma carreira muito extensa. Ao que parece, fez umas mesas e umas cadeiras e meteu uma ou outra pessoa a andar. Nada que um carpinteiro com um curso de fisioterapia não faça, hoje em dia. Ou um fisioterapeuta que goste e saiba de madeira.

E se deus tivesse poderes? Seriam mesmo de cura, ou de adivinhação, ou de jogar poker, ou de jogar ao "pedra, papel ou tesoura"? Já vi um torneio deste jogo e o vencedor achava-se um deus (4).

E se o longo braço da justiça (de deus) fosse antes um tentáculo, entre outros sete? E se a sua fome, fosse o seu poder e a sua forma de se manifestar (5)? E se deus (todos) tivesse um nome, que nome seria? Paulo? E se deus fosse milionário e reformado, por ser um espectáculo para inglês ver, e uma fachada para as mais variadas atitudes... ah, pois, têm razão, isso já é, não é a minha imaginação, perdão...

Os papas devem estar a dar voltas no caixão de tanto rir, por descobrirem que deus é um molusco. Até hei-de formar outra religião. E ainda temos mais um pró, deus adora futebol e sabe tudo sobre ele, até me vai proporcionar apostar no meu clube. E se deus se enganar, pelo menos já mostrou mais serviço que a maioria dos deuses que anda para aí. E se deus se enganar, não vai fazer mal, porque até os deuses e "os polvos se enganam". Basta ver quando deus se distraiu e defecou na terra em vez de na sanita. Só aí, criou a humanidade. Erro grosseiro e merda da grossa, transformado em coisa pouca... Amén.

Eduardo Rilhas

Textura

sábado, 10 de julho de 2010

De morte



Que tudo mais reles. Que carne mais pálida e desenxabida, onde mora o que tínhamos. Que vontade mais morta, que apetite picado, que dedos gordurosos de tudo o que faz mal e nem sabe tão bem, quanto isso. Que peles a mais, no meu caixote de lixo. Que tudo mais baixo, mais gordo, tudo mais mesquinho se despido de artifício. Cuspo na realidade, nada se altera - que valha a pena registar.

Vivemos dentro de um cubo que não existe. Mas nós dizemos que existe, quase pensamos que existe. Vivemos numa caixa de 'protecção', que antes se apresentava como sociedade. Agora rimo-nos. Nem sabemos sequer do que nos rimos, mas rimos com certeza para não chorar. Dizemos para nós próprios que temos o exemplo a dar, a manter, para que nos olhem e pasmem de espanto, enquanto dizem aos filhos 'olha que exemplo'. O exemplo nós damos, o que vem a seguir é que nos escapa.

Como não sou boa a Matemática, posso afirmar que, se X ladra, Y morde. Ninguém se aleija verdadeiramente; por causa do presente(?) cubo, há sempre quem defenda que o sangue de fora veio porque se fartou de estar de dentro. Porque quis.

Há ainda quem acorde e pense que é um bom dia para morrer. Depois tente convencer outra pessoa do que pensou e, como ainda há um ínfimo espaço para discórdia na conhecida caixa quadrada de cartão, não se chega a conclusão nenhuma. Vai daí, mata-se quem não anui e vai-se à praia; é alegado que tem pensamentos suicidas, mas que esses dão mais trabalho. Ou queima-se a loira porque não era morena; 'queria tostá-la, uma vez que não há sol'. Tenho tanta pena do cubo de papel desfeito em ripinhas. Uma pena louca. De morte.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Tenho problemas, mas não este


Não me sintas, não hoje.

Hoje sou um homem partido, de braços erguidos,
Qual cenário dramático. Só me falta a chuva.
Não quero batalhar mais guerras, porque não sou eu.
Esta voz roça as batalhas de letras perdidas
Músicas feitas de guitarras desfeitas

(E não não sou um solitário)

Não me sintas, não hoje.
O pior não passou, e não te quero agarrar
Quero agarrar-me à minha dor, angústia e desejo
Porque fui um homem por inteiro,
E hoje nada tenho senão uma carteira e uma chiclette

(Apenas quero finjir-me morto)

Troca-me, ainda que só até amanhã.
Bonsais de folhas mal aparadas,
Já viram estas mãos de tudo
Texturas arrogantes de sons agudos, já estes olhos viram tudo
Não me imites

(Venho já, vou só comprar pão)

Eu sou eu, desde o futuro.
Não venhas ver o vale dos sonhos pretos
Deixa-te estar a sentir essa coisa que queres saber
Sente essa raiva te tomar o corpo
Sente essa perca de fé em ti

(Está um calor nesta noite de morte)

Morto já estou, por ti. Hoje.
Tornei-me dormente pela vida de desesperado
Amanhã, sem ser bem construído
Hoje sem saber o que tenho de comprar ou fazer
Ontem que matou o pouco que ainda sentia(mos).

(Ficas a saber que isto é apenas ficção).

Amo-te de morte (Isto sim é verdade).

Träume


DE: Jetzt, träume ich auch auf Deutsch. Das verstehe ich aber nicht. Was für eine Bedeutung haben diese Träume? Meine Kenntnisse sind nicht so gut um auf Deutsch zu träumen.

UK: Now, I dream in English. I don't get it. What is the meaning of these dreams? My skills are not so good in order to dream in English.

PT: Caro leitor, se consegui captar a sua atenção, queria que perdesse um pouco do seu tempo, para que lhe pudesse dizer que este blog vale mesmo a pena ler. Todos temos sonhos, de todas as línguas. O nosso sonho é que as nossas palavras tenham sentido para mais alguém. Choramos quando contamos histórias e nos interrompem constantemente, com conversa de gente que está à espera de morrer. Se eu pudesse fazer uma única coisa que fosse, de joelhos, não seria ganhar dinheiro, um emprego, ou um favor em troca, como muitos que já treparam o Everest. Seria para vos implorar por (merecido) reconhecimento. Seria para implorar que dessem uma chance a quem tem "estórias" bonitas de encantar, como as pessoas que se esforçam para vos conseguir pôr a sonhar, como eles sonham. Porque todos temos sonhos, de todas as línguas.

O meu sonho em chinês é que prestem mais atenção ao que eles, que escrevem tão bem, têm para vos dizer.

"mein Herz brennt"

sexta-feira, 2 de julho de 2010

mm




Um só milímetro e desapareço. Nem percebo. Eu; nada.

I. É demasiado o que tenho a perder e o tanto de que já não sei que, sim, sou assim. Já não sou prata. Sou cada vez menos polida, cada vez mais chegada à raiz e sem gostar muito da terra em que piso. Sou a força do asneiredo que não ensina nem resolve, do murro dado no sítio errado, da hora certa mas inoportuna, da merda que pisas no chão, só porque não tens nada mais abaixo de ti. (...)



II. É demasiado o que tenho a perder que tudo me assusta. Os latidos dentro de casa, o silêncio feito na rua, a chuva que queima e lava a pele, mas nada mais que isso. Que fico assim. Paralisada, em baba e ranho internada, com terror dos vidros do chão, das janelas, das minhas mãos que não têm quem reze por elas, do meu tom de voz e da minha falta de jeito para dizer o que tu sabes. O que é demasiado para mim, para esta vida, para se perder num milímetro de hipoacúsia divina. É demasiado que não sei dizer, não sei gritar, não tenho espaço onde caiba o que tu és, para mim.


Um só milímetro e desapareces. Nem percebes. És tu; não há nada, para o teu lugar. A maior loucura, amar alguém e permanecer vivo.