terça-feira, 6 de novembro de 2007

Sonâmbula


Não te consigo perceber, senhora menina. Fazes e desfazes como quem penteia e despenteia e não desfaz os nós, é absurdo. Tens a necessidade de te transformares, quando tu nem lagarta chegaste a ser. Nem borboleta, nem borboleta. Suplicas pelo toque e desfá-lo como quem não sabe apreciar, nunca soube, e quase jurava que uma festa te magoa mais do que um soco. Despes-te de profecias e cálculos e súplicas e tapas-te até aos olhos, para que te não vejam enquanto é de dia. Amas esse dia que não mais vem, odeias a noite que vem sempre quando não é chamada e no intermédio destes vives, sem amar nem odiar, quase esquecendo o que é essa coisa do Sentir.
Sentes demais, dizes-me tu enquanto o sorriso que mandas ao ar me parece a coisa mais triste do mundo. Fechas as pálpebras, que as púpilas não me mentem e tudo o que já queres é embarcar na doce arte mimética e falsa. Pensas que não te conheço, menina senhora. Sou eu que te toco, que te penteio e te dispo, com a fúria com que te quero desfazer. Mas não te percebo, percebe-me tu. Enquanto foges, levas-me contigo e eu nem uma pista tenho por onde me encontrar.

Cláudia

1 comentário:

CerberuS disse...

É por ler os teus textos e do Edu que tenho orgulho de estar nesta equipa.

Beijinho.