sexta-feira, 7 de março de 2008

Não tem de quê



Pronto, ficamos assim. Não é nada em que eu já não tivesse pensado, ficarmos assim. Mas pronto, não era bem isto. Mas ficamos assim? Claro, claro... claro- escuro, não sei se fiquemos. Achas bem que fiquemos assim? Eu não acho nada, tenho em mim a opinião de todos os assuntos como um único, o da minha morte - quanto menos pensar nisso, mais vivo ignorante e feliz. Se ficássemos assim, já estaria muito dito. Sim, sem dúvida, já tínhamos aprendido muito um com o outro. Que aprendemos hoje? Que bebemos café na mesma esplanada, quando não está frio. Que nos rimos na mesma altura, em piadas diferentes. Somos tolos e odiamos a palavra. Empregamos os inhos quando queremos escarnizar a conversa ou a fronha de alguém. Sim, somos maus, quando queremos. Tu, mesmo quando não queres. Ficamos assim? Ficamos assim.


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Eu aprendi também que aprendi coisas giras hoje, sem te ter ao meu lado. Não sei a cor do teu riso. Eu não sei se te ris. Rio-me e até desapareço, quanto tu sais sem te despedires. Também choras? Grito muito, grito, grito. Mas choras? Desatino e berro com a alma , em estações de comboios, pareço um homem. Choras? Bem, eu tinha um papagaio que sempre me pareceu mais alto que o céu, quando o prendia e o deixava voar e ele só tinha olhos para mim. Um de nós voava, consegues imaginar?, eu tinha algo que voava e só me concedia desejos a mim. Fazia sentido na altura, mas enfim. O que eu te queria dizer é que me habituei a ele, sempre ali, solto e preso nas minhas artérias principais. Parecia-me belo, justo e o ideal, se fosse para sempre assim. Ele só tinha olhos para ti. Exacto. Um dia , já não sei porquê - esquecemo-nos sempre rápido, sim- distraí-me com o sol, o grito dos gelados ou as pegadas perdidas. Quando me voltei, assisti à explosão final, ele estatelado no chão e eu sem gelado ou pegadas. Nenhum de nós voava e nunca mais voltei. Mas choras? Ele morreu e eu deixei-o morrer. Assim, como se não pudesse ressuscitá-lo. Eu sou má, mesmo quando não quero. Olha, eu choro. Se te resolve a vida, tudo bem.
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Acho mesmo melhor ficarmos assim.
Estamos assim há meia hora. Largas-me, ó faz favor? Muito Obrigada.


2 comentários:

Kerberos disse...

já tive um papagaio mas era apenas mais alto que o céu na minha mente.

Cláudia disse...

A maioria deles são assim, não? Mas pronto, eu continuo a acreditar em papagaios.