quinta-feira, 4 de junho de 2009

Lato Sensu


Só visto: as coisas que as pessoas dizem umas às outras quando já não têm muito para dizer umas às outras. Que 'a vida não pára, que o tempo está feio, porco e mau, que não há tempo para a vida e para precisarmos uns dos outros, como d'antes'. Eis finalmente o porquê de eu gostar cada vez mais de animais: não falam, não magoam de propósito, não magoam de verdade. Comigo posso eu bem, com os outros é que não.


Depois existem palavras de consolo e de 'palmadinhas nas costas' que me metem nojo, mais do que qualquer puta sexagenária e desdentada do Intendente. Vêm-me com a conversa do 'tem tento na língua', 'não faças', 'não digas', 'enfia-te dentro da arrecadação, apaga a luz e asfixia-te'. Ai, o que eu preciso é de ar puro. Os amigos de outrora, onde estão, onde morreram? Onde estão as suas famílias e os conselhos pela madrugada fora? Onde estão os esgotos para onde lançaram os meus abraços? Onde estás tu, que eras meu e eu tua e agora, nem do mundo nos podemos gabar que somos?


- Não se pode interromper a vida para sempre.

-Talvez, mas há muito que a vida não é uma linha contínua.


2 comentários:

No Limite do Oceano disse...

A vida pode nem ser uma linha contínua, mas quando se a interrompe, não nos podemos esquecer que há o Stop, pause e o play. Para mal dos nossos pecados (isto para quem peca, pois claro) as coisas são mais ao menos assim...

Abraço,
Carlos

Alucard disse...

falas, escrevendo. consegues dar voz não só aos teus mas também aos meus pensamentos, pois penso exactamente como tu, ainda que de forma diferente.