segunda-feira, 21 de abril de 2008

Madrid/O maior espectáculo do mundo (revived)/Eu e eu (e tu)

Aqui ou em Madrid
eles vão estar lá.
Acolá ou em Calcutá
eles vão estar ali,
na situação, comigo.
Não é esse um dever de um amigo?

Coisa gira é não fazerem por dever,
coisa gira é fazerem por querer.
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Sou um palhaço.

Aquele palhaço que sempre divertiu as pessoas, continuará a diverti-las, até um dia...
Se perguntar se as pessoas me ouvem, me vêem, me sentem, elas responderão que sim. Mas se eu me calar, se eu desaparecer, se eu deixar de tocá-las elas exigirão o meu regresso, não importa se estou doente, cansado, mesmo a morrer, não importa. Elas necessitam de me consumir. Para elas sou um sonho, eu serei o que elas me sonharem, eu poderei ser poeta, rei, amante, tudo, desde que as pessoas o sonhem assim.
E eu sonho que elas me amam, que se importam comigo, que realmente me ouvem, vêem, sentem...
Se algum dia puserem a vista num melhor palhaço que eu, abandonar-me-ão e estarei entregue a necrófagos. Isso é uma certeza. Até lá, eu e o meu público vamos sonhando mutuamente. Eu sonho que eles me amam. Eles sonham as suas fantasias em mim. Enquanto tiver forças, podem consumir-me como quiserem, usar-me para o que mais fantasiarem. Neste mundo quimérico é o único recurso que temos. Sonhar. Fingir ser real o que mais ambicionamos que o seja. E como palhaço, terei com certeza uma grande plateia sempre a aplaudir-me, nunca estarei sozinho. E, contudo, quando estiver sozinho, irei reparar que estou mais acompanhado.
Esse palhaço sou eu.
Conseguem ouvir-me? Conseguem ver-me? Conseguem sentir-me? Claro que sim. Conseguem compreender-me?...
Um dia, o palhaço apaixonou-se, o seu amor era o melhor porque provinha do sonho, maldito e bem aventurado sonho que prendeu o palhaço nessas correntes férreas, as do amor. Ele não podia possuir o seu amor, era demasiado feio, coxo, desengonçado, era demasiado palhaço. Mas o seu amor era perfeito porque era sonhado.
Por vezes, de noite, escapavam os dois amantes do mundo, corriam pelas nuvens, em direcção à lua cheia, nela beijavam-se e descansavam, e depois, subitamente, ela desaparecia. Onde se metia a sua amada que tanto amor lhe tinha dado, que tantas carícias lhe tinha dado, que tantas promessas lhe tinha feito? Desaparecia todas as noites, no mesmo momento, depois de se beijarem na lua. O palhaço não compreendia que esse amor era impossível porque era apenas sonhado.
Esse palhaço era eu.
Um dia, o palhaço irá cansar-se, não irá saber lidar mais com a pressão da plateia sempre exigente, sedenta por novos truques, à espera que cometa algum erro para rir da desgraça. Não irá também aguentar mais a sua espera pelo amor e não conseguirá nunca sair do vício de sonhar.
Quando o palhaço se cansar procurará um reino afastado, com uma árvore que sirva de forca e sonhará para sempre ali pendurado com um sorriso macabro e o corpo oscilando ao vento.
Esse palhaço serei eu.
Um dia, li um texto de ma colega de turma. Ela dizia que todos usamos uma máscara. Acho que nunca me esquecerei de algumas frases desse texto. Eu admito, uso até mais que uma máscara. Finjo que sou feliz, que sou inteligente, que sou interessante, sábio, amigo, mil e uma coisas, quando no fundo sou só um palhaço. Todos usamos essas máscaras para que os outros sonhem que somo o que a máscara nos mostra. O que mostra a tua máscara?
Que valor têm realmente as máscaras se nunca seremos o que representam?
À noite retiro todas as máscaras e sou só um palhaço infeliz. De dia, posso ser feliz, inteligente, interessante, sábio, amigo, mil e uma coisas, mas só com as mascaras colocadas...
Esta rotina cansa-me e o meu único escape é o sonho. Em sonhos posso ser rei, poeta - ah como eu gostava de ser poeta - amante, posso voar junto às baleias, o céu pode ser cor de rosa, posso até ser livre!
Fora o sonho, sou só mais um palhaço.
Um palhaço que um dia se enforcou.

2006/02/21

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Eu e Eu (e tu)
A partilha da própria vida com alguém:
- O que tens aí?
- São coisas minhas…
- Estás a pensar em quê?
- São pensamentos só para mim…

8/3/2006



Anos volvidos

e nada mudado...



o palhaço não falha
o palhaço não falhou
o palhaço não falhará

1 comentário:

Claudia disse...

Porra. Além de muito bonito, muito complexo, Muito complexo... não dá para deixar um comentariozinho e pensar que fiz a minha parte.

Enfim. Não acredito que haja alguém que não encontre, nem que seja um pedacinho, de si neste texto.

Aplauso.