quinta-feira, 10 de abril de 2008

Sem lamentos


Chove a cântaros. Chove para o chão,
Pela colina acima e abaixo,
Pela face de uma abelha,
E eu, eu mordo a lágrima que se confunde com uma pinga de chuva.
Toca o mendigo debaixo com as cordas da guitarra ensopadas
Olhando para a poça em frente
Sentado numa caixa de papel desfeita. Mundo desfeito o seu.
Molho a face para sentir que estou vivo
Trinco aquele teu sorriso que me conquistou. Que não o percas.
Inundam-se as arestas dos cantos redondos desta casa,
Fogem a pés juntos os caracóis, para dentro da sua carapaça,
Molham-se as janelas inexistentes do carro abandonado
Esmeram-se as gotas por me tocar.
Não te esqueças de todas as coisas que te escrevi naquele papel,
Estranhas palavras, é certo. Anjo sem asas,
Toupeira de asfalto, bola de sete bicos, por entre as tempestades,
Paisagens descobertas pelo ruído do desabamento.
Tudo é novo, gasto e descoberto
Debaixo desta chuva de lágrimas e desabafos
Tudo fica humidamente seco
Tudo é a debandada do que faz sentido num mundo incrivelmente
E fantasticamente seco de chuva sentimental.

Eduardo Coreixo

1 comentário:

Claudia disse...

Adoro visualizar a tua escrita. =) Muito bom. Beijinhos^^