quinta-feira, 15 de maio de 2008

Hora do Conto

A noite ia a meio. Um corpo cansado encontrava-se deitado numa cama de solteiro, pronto para adormecer a qualquer instante. Tinha posto a dar no seu DVD aquele concerto que o encantava e o fazia descontrair nos momentos que mais precisava. Por fim, o cansaço venceu a meio daquela cantiga que tanto ouvia.
No dia seguinte, Santiago acordou com o despertador. Era tão cedo mas a faculdade esperava-o para mais um dia de rotina que ele odiava. Tomou o pequeno-almoço a correr e saiu para o ar fresco da manhã. Antes de apanhar o eléctrico, foi-se inscrever para tirar a carta de condução. O desejo de conduzir um carro era o seu maior sonho desde que fizera os 18 anos e agora podia concretizá-lo.
Mas Santiago não sabia, nem podia saber, que aquele dia seria o último da sua vida e o primeiro de uma nova. Ninguém advinhava que assim fosse.
O dia decorreu com toda a tranquilidade que ele estava à espera. Os pais telefonaram-lhe para saber como estava (desde que tinha saído de casa para vir estudar para outra cidade, que os pais lhe telefonam todos os dias).
Durante a tarde, dado que tinha um furo de três horas, decidiu sentar-se na esplanada com o seu mp3. Acendeu um cigarro e ouviu uma voz atrás de si:

-Desculpa... Podes me emprestar o teu isqueiro?

Santiago perdeu a noção de tempo e de lugar. Uns olhos verdes dirigiam-lhe a palavra. Um cabelo longo de um castanho arruivado esvoaçava ao vento e... o tempo parára.

-Sentes-te bem?! Precisas de alguma coisa?
-Não, não! Obrigado. Foi só uma pequena distracção. Aqui tens o isqueiro.

Aquela imagem acendeu o seu cigarro e devolveu-lhe o isqueiro.

-Queres-te sentar enquanto fumas?
-Oh... Gostaria imenso mas tenho pessoas à minha espera.
-Ah ok. Não faz mal. Fica para uma próxima.
-Sim. Não irão faltar oportunidades. Bem, adeus.
-Adeus.

Já a rapariga se afastava quando Santiago se lembrou. Não lhe tinha perguntado sequer o seu nome.

-Diz-me ao menos o teu nome! - ainda gritou.
-Madalena. Chamo-me Madalena.
-Prazer... - murmurou Santiago para si.

Naquela altura sentiu que tinha ganho o euromilhões (coisa que nunca joga), sentiu que o seu coração explodia intensamente.
Durante duas ou três semanas, tudo se repetia de novo. Todos os dias, sem excepção. Madalena pedia-lhe o isqueiro emprestado mas nunca podia ficar quando Santiago a convidava a sentar-se para fumarem os dois enquanto conversavam.
Um dia, Madalena decidiu sentar-se e Santiago não se conteve e a meio de uma conversa balbuciou a medo:

-Adoro-te...

Madalena deu uma passa profunda no seu cigarro, deitou fora o fumo e apagou-o. Depois, virou-se para Santiago e quando este lhe ia dizer qualquer coisa, esta colocou o seu indicador na boca dele de maneira a que se calasse.

Depois... beijou-o.

Jorge Filipe da Ressurreição


próximas palavras chave: fado, Simone, anos 60

4 comentários:

Tiago disse...

Perante um tal obra literária digna de algum canto rabiscado num livro daqueles que se vende na gare, da gare do oriente...só consigo dizer algumas coisas:
A Madalena era boa? O tabaco tinha que % de nicotina? E o beijo? Foi aquele um beijo com amor, que tornava o azul em escarlate? Ou o calor em suores frios? Aquele que agoniza o coração por um segundo mais daquele momento? Se sim, então nada mais interessa... Pois o Santiago pode continuar com a sua vida, e escreveres mais belos contos acerca dele!
Abraços

Eduardo disse...

Fizeste com que ficasse com um sorriso nos lábios...
A simplicidade é por vezes uma qualidade.

Claudia disse...

Nunca percas a capacidade de acreditar em momentos e pessoas mágicas.

Gostei tanto, gostei muito. ;)

Raistlin The Wizard disse...

Incrível como a narrativa e a situação são tão tipicamente portuguesas.

Concordo que as vezes a simplicidade é a melhor das opções e este texto sem artifícios é de uma leitura leve e agradável, quase desejamos estar num jardim enquanto uma breve brisa acarificia os nosso pensamentos e nos perdemos na leitura...