quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Eurínome (encontro marcado)


Sou uma pega de uma bailarina decepada e sem pernas, essas sereias que jocosamente se deitam defronte de mim e me ensurdecem com o olhar. As minhas mãos, serpentes inutéis, torturam-me e gozam do meu marasmo e desemprego e nem na sopa dos pobres me arranjam lugar; secaram as terras e pedras são pedras, dizem elas, inefáveis e mitológicas. E eu sou uma posição de feto sem pernas nem boca ou mãos ou força para me levantar. Esqueço-me de que sou feita.

Não digo nunca algo que alguém não saiba, é tudo raso e fraco e frágil. Não tenho vida ou vício ou mania que me diferencie, identifique. Antes era antes, escrevia e sabia de que era feita. Para saber de que era feita. Sabia-me bem ser lida, porque sim. Mas hoje e depois não sei que ar respiro, que vida ou vício ou mania me diferencia. Não quero público e não sei o que quero.
(Odeio o som. De estalos de dedos. Comida a fornicar com saliva, a fornicar-me os ouvidos. De palavras que são pessoas que não se ouvem a si próprias e não sabem chorar. Odeio os olhos. De gente vazia, a confundirem melancolia com os passos trocados, os dias contados, a última carta para a mãe. Há quem voe com os pássaros e há pássaros que morrem todos os dias. Odeio sabores mal temperados, más bocas, más línguas, palavras que querem ser bonitas a todo o custo e se esquecem de que são feitas.) Odeio não conseguir. Ser muito vulgar. Eu a achar-me especial e a acabar sem pernas nem mãos nem boca nem força para me levantar.

Escrevo sempre em jeito de socorro.


1 comentário:

(...) disse...

Aqui fica o meu (muito) apreço.