terça-feira, 22 de junho de 2010

Palestra num funeral

Era um homem que tinha como profissão sentar-se ao lado de pessoas a morrer, ainda que com alguns meses de vida, e ouvi-las por horas a fio. A lamentarem-se, a chorar, a morrer. Este homem não era psicólogo ou psiquiatra, nem tinha, que eu saiba, qualquer conhecimento de medicina. Apenas estava com as pessoas, via-as morrer, recebia o seu dinheiro, e partia.

A sua irmã, tinha como profissão estar de pé ao pé de pessoas, com muitos anos de vida e agonia pela frente, e dar luz à luz que iluminaria os dias de agonia que essas pessoas ainda tinham pela frente. Filhos. Crianças. Esta mulher tinha múltiplas alegrias por dia, não com o seu marido, em casa, ou com um colega, no trabalho (valha-nos isso), mas antes perante o olhar de mais um infante ou infanta trazidos ao mundo.

Portanto, a única coisa em comum destes dois, era o facto de serem irmãos. E a importância da irmã para esta história, é próxima de nula.

Concentremo-nos então no homem: como qualquer charlatão ou pagante de promessas, a maioria da clientela deste homem era gente que acreditava cega e estupidamente em algo que lhes confortasse a mente, que lhes aconchegasse os problemas. Era gente de crenças maiores, que lhe colocavam a inteligência num nível menor. Chamavam-no, pediam-lhe para ficar, e a partir daí estava contratado, tinha de acompanhar o doente, até que a morte os separasse, o que para ser franco, nunca era muito tempo. Na verdade, ele não enganava as pessoas, apenas se servia delas para obter sustento. Vivia sozinho e não sabia fazer mais nada, teve de recorrer a um esquema, no mínimo de esperteza avançada, para não lhe chamar inteligência, para subsistir. Bem, os clientes pareciam não se importar. Todos morreram um pouco mais felizes, porque todos tiveram alguém que ouvisse as coisas chatas e repetitivas que os velhos dizem quando já não estão muito bem da cabeça. Não me interpretem mal, não é que o homem não prestasse atenção, ou não conversasse com tanta arte quanto possuísse na altura. Mas temos de dar a mão à palmatória que ninguém está para ouvir um velho queixar-se para além de duas, três horas, quanto mais por vezes semanas ou meses.

Um dia mais tarde, contava este homem, na sua cama, algumas das coisas que passou no "ofício". E se bem me lembro, era qualquer coisa como:

- Tu não sabes os horrores que eu ouvi contar. Gente doente, com filhos doentes, que só conhecem sofrimento na vida. Não me admira que no fim disto tudo, as pessoas chorem, que mais haveriam de fazer? Que merda de vida que muita gente teve! Uma velhota, a confessar-me que se teve de prostituir, até quase aos setenta anos, para poder pôr comida no prato da família. Setenta anos é idade de fazer Arraiolos e croché, não de andar a dar o corpo ao desconhecido. Os ossos já não querem nada connosco e os músculos já não flectem como antes. E, se ainda hoje olhamos a prostituição de lado, consegues imaginar a prostituição de idosos? E o pior: o marido é que a incentivou, por assim dizer. Porque ele não tinha emprego ou era demasiado calão ou o raio que o parta. A minha irmã sempre me disse que eu era uma besta por me aproveitar desses velhotes e velhotas e das suas vidas miseráveis mas ela não sabe metade do que acontecia. Eu ao menos, estava a tirar-lhes peso, ainda que de dois sítios: da alma e da carteira. Uma ou outra cliente queria consumir carne mais nova pela última vez, e eu como empregado, tive de executar a tarefa. Não fiques tão chocado, o que querias que fizesse? Era quase chantagem, ou era mesmo, acredita. Outro cliente, não sabia dos filhos, dos netos e dos bisnetos, ou tinham todos morrido de doença. Outro tinha perdido três membros na guerra, e ganho outros tantos traumas. Ele só chorava. Ouvia estes clientes e as histórias só contavam morte, doença, agonia, sofrimento, sujidade. Era um caos, o que eu fazia para viver, e todas as histórias estão resumidas na minha cabeça, não me lembrando já de todos os pormenores. Todas as histórias ficam, de certa forma comigo, e eu, que nunca tive ninguém, tenho agora comigo todo o sofrimento partilhado por centenas de famílias perfeitas, quando olhadas superficialmente, aprofundado no seu âmago de podridão.

Era mais ou menos isto, além dos seus próprios sofrimentos, que ele contava, no seu leito de morte, na sua cama. Eu lembro-me relativamente bem, pois este homem... bem, ele foi meu cliente...

(Saramago, morreu. Deixou-nos muito. Outros irão nascer.)

4 comentários:

Seras Victoria disse...

Como sempre Alucard, só me surpreendes :)

Um beijinho

Anónimo disse...

o gonçalo gameiro mostra apreço

Maggie disse...

Eu disse que vinha cá!

Eu já tinha lido, mas foi muito à pressa, então decidi não comentar.

Hoje já li com mais atenção.




A ideia está muito gira, consegue levar-nos da seriedade ao sorriso em poucos segundos.
O final está perfeito! E pus-me a pensar se não devia arranjar um emprego destes =P

Estou a escrever um texto novo, depois a ver se te aviso qd puser no blog.

Beijinho

Alucard disse...

obrigado a todos...

a história do € era mentira, by the way