terça-feira, 1 de abril de 2008

Doce cegueira



Rostos disformes e sujos
Olhos que já não servem para olhar
Narizes escarlate em tamanho XL
Bocas escurecidas,
Dentes em falta e repugnância como cartão-de-visita
Sujos, empoeirados,
Confundem-se com as paredes velhas em final de vida
Acabarão por desabar qualquer dia sem que ninguém dê muita atenção.
Mãos gastas de tanto vaguear
de tanto embalar o vício entre os dedos
Mãos doridas, fim-de-viagem de trocos a mais na carteira
e peso nas consciências
Mãos inchadas de tanto esperar por dias melhores
que é como quem diz mais verde e vermelho em excursão
entre as mãos e as bocas.

Não olhes! Não pares! Continua como se nada fosse!

Bocas-furor-obsceno-de-palavras-a-meio-gás;
porque os dias de viajante nómada sem rumo roubaram-lhes a energia
e a dignidade
Bocas-abrigo de histórias de desdita e ilusão
sem interlocutores, sem audiência, sem aplausos no fim
Bocas, pontos de partida para mundos inexplorados

Não olhes, já disse! Continua a andar! [Pode ser que desapareçam.]

Olhares vazios, cansados de tentar que se entenda
que as coisas mais importantes não se dizem
Olhos-testemunha do desfile de hipocrisia
a que assistem todos os dias
Olhares-desesperados
Que bradam em vão pela volta de impossíveis

[Estão a mais e incomodam! Pode ser que desapareçam...]

Os dias correm indistintos, o tempo não existe
Só o verde e vermelho interessa
Entre os dedos das mãos e as bocas imundas
São como uma nuvem cinzenta antes de uma tempestade indesejada
Andam em bandos desorientados
com os corpos inchados, sombrios e suados
da longa caminhada
Cheiram a doença e a nojo
Cantam alto para que se perceba que existem
Deambulam de um lado para o outro
Espalham um fedor insurportável
E não entendem que incomodam
Que enojam
Que estragam o dia a quem passa.

[Só espero que não se cheguem perto]

Vivem com a terna promessa de uma longa catalepsia
-prenúncio de descanso eterno...
Mas os saltos altos a ressoar no chão, bem junto ao ouvidos,
acabam por despertá-los do doce marasmo
e a vida continua...
Até um dia.
Entretanto, não olhemos...

2 comentários:

Eduardo disse...

fizeste-me lembrar uma situaçao curiosa...a sociedade portuguesa, onde a cegueira está implantada em tdos...gosto, claro que sim, poema enorme (de tamanho e de qualidade), e quem sabe um dia essa "doce cegueira", nao seja uma doce visao...
Gostei.
Bj de saudade

Cláudia disse...

Fiquei sem palavras. Que ta-len-to. =)