segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Dor no peito

Querido diário, de palavras inconformadas,
Fecho os olhos de pesado sentimento, e escrevo-te as más novas
Que a minha mão está fechada de fúria
Os olhos fervem de tanto choro calado,
Hoje, meu confidente, sou tempestade em mar alto.
Correm os dias sem saudade aparente, porque tudo é dispensável
Assim que as paragens me tornaram descrente na Humanidade,
Na paixão de outrora que se formou por mim
Uma fotografia agastada pelo tempo perdido.
Pois é querido amigo de linhas direitas como linhas férreas,
Por estes dias acredito que não consigo tirar da minha mente
As dúvidas, derretem sobre o meu soul
E nem pergunto porquê. Hoje não.
Parece que este mundo de amor, se parou pela paisagem,
E hoje vou-me deitar a ler estas palavras que te conto,
Porque em dias como este, querido diário,
Gostava de ser amovivel.
Eduardo Coreixo

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Contracto para a vida


Que jogo tão confuso de se jogar,
Que coisa tão confusa de se fazer,
Confuso pelo meio do tempo intemporal,
Confusão nesta cor transparente de sorrisos.

Tudo amargou por ser sem tempo,
O próprio amargo não adoçou,
Porque engoli a vontade amarga de te dizer, de te mostrar
A tristeza, o desespero, a amargura.

Quero pegar no telefone, e saber o que lhe fazer,
Porque telefonar é tão impessoal,
Quanto o próprio jeito de falar de amor telefonicamente,
Saudade telefónica, da tua voz.

Quanto não dói saber que morres eternamente,
Morte imune aos desejos de um pecador docente
Que saber o que é estar dormente é tão mortal,
Quanto a a tua própria mortalidade, também ela impessoal.

A cada passo, a cada respiração,
Passo a alma, sem saber o que é respirar,
Porque passando os arcos da tristeza, respiras com o cérebro
Passadas largas, do inferno irrespirável.

Vou-te incansavelmente fazer-te a derradeira pergunta,
Porque o cansaço destas palavras, leva-me a vontade,
Vais ler em baixo, sem expressões cansativas de desamores
A montanha que cansativamente trepei, para te olhar nos olhos:

Esbanjas o infinito,
Assim que infinitivamente olhas o teu lugar de baixo
Já que o teu verbo, o dizes sempre no infinitivo, "amar",
Pergunto-te: vamos ficar infinitivamente?
E se não percebeste, pergunto daqui de cima do infinito:

Casas comigo?!
Eduardo Coreixo


quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Pequeno poema

Uma vida a dois

No meio da cidade deserta que é o teu coração

Por ramos doces, que crescem do chão imundo

Arenoso está o botão para desligar a morte.

Cidade perdida, qual Lisboa em tempos de guerra

Olho para ela, como piedade em calda em ponto;

Tudo o que se diz e não se escreve é pecado,

Porque assim se perdeu o contracto com a felicidade.

Negro, negrito, negridão completa

Choro pelas almas que perdeste nesse deserto de água seca,

De sol duro e mordaz, do tocar da fonte luminosa.

Eduardo Coreixo

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Ao Mar

Acalma-te, Mar furioso,
que a Caravela só avança
quando vier a bonança.
Deixa navegar o português curioso...

Acalma-te, Mar irado,
que o Cruzeiro só avança
quando houver segurança.
Deixa navegar o português enamorado...

Acalma-te, Mar selvagem,
que o Marinheiro só avança
quando tiver confiança.
Abre o coração para o português sedento de viagem...

Mar, não me engulas com o mundo
no dia do julgamento final,
pois sabes que me és tudo.
E até porque afinal:

Quando reparamos em quem queremos,
Já, quem tínhamos, não temos
e não adianta (sequer) lamentar
que perdemos, com quem queríamos ficar.
Sim, Mar?


O teu fiel Marinheiro.
E. R.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Cala-te por uma vida


É que eu já nem vos peço mais nada do que uma vida de silêncio. Pelos defuntos, pelos audazes e por mim. Por qualquer coisa que não mereça ser dita, por promessas escangalhadas no meio do chão, por regressos esperados, por sombras sem dono nas casas abandonadas à meia - noite de Sintra. Pelas mentiras dos olhos e pelas inutilidades das mãos. Pela cabeça vazia de amanhã e ontem e para onde ir. Uma vida de silêncio estático e agarrado aos pulsos escravos que me prendem e me torturam com a doce distância que és tu a ver-me e eu, sem ti.


E hoje dói-me não ter voz que grite o bastante, não ter alma despejada de pó, não ter, não ter, não ter nada que não me doa quando me calo. Não me doer já me dói o bastante e, no entanto, entretanto, são tantos os caminhos que me são vedados e tantas as palavras que não me pertencem que os meus lábios sangram, por medo de serem ouvidos. Eu sou o mundo inteiro quando me sonho e me lavo dos caminhos que hão-de dar ao Hades. Quando, por momentos, eu sou profunda, eu valho a pena, eu sei o que digo e não quero dizê-lo a ninguém. Eu sou o medo, o medo sai do medo e o medo não é nada.




Be quiet, mylady, sooner or later you'll know why you're here.


(Dr. Jekyll e Sr Hyde, uma vida de silêncio que me queime os cantos infelizes. Eu sou uma boa menina. Boas Festas).