quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Vazio

Miro-me no espelho, e só vejo a tua janela de dor.
Sou sensivel e choro porque te quero ajudar cara amada
E sofro pela tua noção presente de desprezo.
Eu vejo-te. Eu sinto-te.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Gafanhoto

Vi um gafanhoto, era gigante, parecia distante
Ele sempre esteve ao pé de mim, eu é que não o tinha visto antes
Fiquei um bocado hesitante. Vou apanhá-lo antes que ele fuja
Fui buscar uma garrafa, por acaso até estava suja

Ele estava livre, ele não notou que eu queria apanhá-lo
Talvez por isso não lutou quando tentei agarrá-lo
Meti-o dentro da garrafa, fechei a tampa e parti
E ele começou a saltar a tentar fugir dali

Fui buscar um alfinete para que ele pudesse respirar
E enquanto furava a garrafa ele não parava de saltar
Tentei furar onde ele não estava com medo de o aleijar
Mas ele procurava o alfinete sem medo de se picar

Já me estava a irritar, comecei a abanar a garrafa
Na tentativa de o acalmar e ele mesmo assim não parava
Não percebi porque lutava, ali ele estava seguro
Mas o animal não parava, sentia que estava em apuros

Então decidi soltá-lo, nunca lhe quis fazer mal
Ele era um animal tão raro, só queria domesticá-lo
Abri a tampa e deixei-o ir em liberdade
E ele saiu da garrafa mas não saiu do meu lado

Depois disto tudo achei estranho não o ter assustado
Ficou parado no mesmo sítio onde o tinha apanhado
Mas eu queria que ele voasse, voltei a ir atrás dele
E ele só fugia a passo, parece que não queria fazê-lo

Estará ele aleijado de tanto salto na garrafa?
Naquele estado em que ele estava até eu mal o agarrava
-Vamos lá Senhor Gafanhoto. Conquista a liberdade
Há bocado estavas preso. Agora foste libertado.

Deixei sair o meu gato que nem sequer reparou nele
Caçou um mais pequeno e começou a comê-lo
Eu fui lá salvar o bicho daquela atrocidade
Tirei dali o meu gato e fui fechá-lo no quarto

O gafanhoto entretanto continuava parado
Continuava distante e continuava ao meu lado
Soltei o gato outra vez mas desta vez agarrado
Meti-o ao pé do gafanhoto e este ficou alarmado

Não fugiu, não se mexeu mas estava defensivo
Era essa a sua táctica na luta para ficar vivo
O meu gato atacou-o e ele tentou fugir
Mas já estava dominado. Não tinha como sair

Fui lá salvá-lo do gato e ele finalmente voou
E eu fiquei arrependido por tudo o que ele passou
Parou numa parede fora do alcance do gato
Entretanto todo este alarido já começava a ser chato

Fui para dentro de casa e fiquei a pensar naquilo
Não chateio mais o gafanhoto, ele assim está tranquilo
Não há moral nesta história, deixo em aberto o fim
Porque de facto o que se passou foi exactamente assim.

iPod ser verdade - Morte parte I

Sem onde te esconderes.
Silêncio por corredores fundos de vazios,
Cheios de uma multidão anormal.
Torre de Babel, 40 milhas do Sol.
Grão de pessoa grutesca
Insensatez adulta.

Morre animal feroz.
Relaxamento mortal
Ração de ferro para sobreviveres
Veneno sólido nas tuas veias.

Corres para becos
Ruges em céus breus.
Morre animal feroz.
Aqui jaz a tua alma.

Eduardo Coreixo
"Uma alma morta, é uma alma completamente conformada"
(Charles Péguy)

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

The Fire Still Burns


Na minha perspectiva, encontrei-a:
a rima mais perfeita deste mundo.
Conseguindo unir a fervente areia
com o gelado mar profundo...


Sinto-me forte e desperto,
de maneira nenhuma um cobarde.
Sabendo que mesmo longe, estás perto.
Sabendo que o fogo ainda arde...

(Assim sou, elo de ligação entre antónimos,
fiel às poucas amizades que fiz.
Outro poeta do fingimento
com menos de metade do talento.
Imune ao mal e seus heterónimos.
Tive sempre tudo aquilo que quis.)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

3 Pilares


Conceptualizei uma instalação de 3 pilares, dos quais saíam vídeos, textos e sons. Eles se entenderiam harmoniosamente dois a dois, pois dois é bom, três é demais já diz o ditado.
Porém, instalação não é o formato mais adequado para blog, não resultaria e não valeria a pena perder tempo com o mesmo tema em duas obras distintas, por isso decidi trabalhar na instalação quando for oportuno.


Para agora fica isto, uma tomada de decisão e uma pequena informação. Não fica trabalho nenhum feito nem para mostrar pois, pensei, perdi a atenção e morreu na ideia.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Heil


27 pessoas, a maior parte crianças, mortas pelo poder anárquico do mato-me primeiro e a ti depois, como pregoa uma canção antiga. Vidas como pagamento das mensalidades da renda em atraso. Há uma qualquer espécie de solidariedade que é mais medo de cair do que vontade de levantar. Há medo de tudo, sobretudo. E então outra vez, noutra parte do mundo, mato-me primeiro e a ti depois.

Temos duas vias para um novo ciclo: a da barbárie humana ou do amor pela instituição (leia-se,
 sociedade, leia-se, amor e respeito uns pelos outros) e pelo espelho que pode se tornar real, acreditem. Eu preciso de acreditar. 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Complatamente...Visivel.


Quando tudo cai daquela escada perpendicular.
Pedi duas coisas ao mundo, aquele amor e pouco mas suficiente dinheiro:
Virou-me a barriga das pernas, e disse-me para a procurar com os olhos.
Procurar como? Então terei que deixar de sentir? Ser fútil?
Não, eu não sou Gaspar, nem os Passos d(um)' Coelho.

Tudo me caiu das mãos ao ver a ruína de um país construido,
De tanta lágrima e sangue derramado em terras nacionais.
Não, palavra de ordem. Sem pânico.

Ossos esgazeados de tanto serem chupados,
Cordas a roçar em nós...parecem violinos finos.
"Ah! a economia, Ah o pesadelo, Ah! a crise...".
Ah!, não. Não há. Nada. é essa a verdade.

Choro ao ver esta minha gente portuguesa passar pela mundez,
Arrepio-me ao ver jovens desterrados em praças de humilhação.
Velhos...Velhos a chorarem no poial das suas casas.
Vergonha. Vergonha destes governadores deste país que lutou como nunca,
Vergonha por dizer que jamais irei comer Coelho, que jamais irei gostar desse Rei Mago...
Gaspar...Give me a break.

Lamento pela inoperância de quem tem emprego,
Mas tenho que o segurar antes que me escape e me distraia.
As cordas desses senhores jamais perdoarão.

Peço desculpa pelo poema nada rectilíneo, e pela frustração clar.
Estou como o nosso país,
Em forma derrotada por forma. Oco por dentro.
Lamento.

Eduardo Coreixo

Improviso

       Esta semana, tive de preparar o plano da minha dissertação de mestrado para apresentar hoje às 16horas. Assim, não tive tempo para preparar um texto para vos apresentar. Contudo, lembrei-me de fazer duas coisas: 1.º) apresentar-vos o dito plano, de modo a que também vocês possam comentá-lo, e sugerir correcções, acrescentos, etc; 2.º) não sendo a minha especialidade, recomendar-vos 4 CD's saídos este ano.

1.º) 

Título — Palimpsesto Camiliano: a construção do trágico em A Sereia



Estrutura
Preâmbulo. O manuscrito e o romance: dados para um estudo comparativo
1.     A tragédia e o trágico: uma questão teórica
2.     Motivos Clássicos
2.1  Motivos míticos
2.2  Motivos históricos
2.3  Motivos literários
3.     A Sereia: construção do trágico
4.     Conclusão
5.     Índice de autores
6.     Índice de passos citados
7.     Índice de obras de Camilo

O primeiro capítulo da dissertação será desenvolvido em torno da questão basilar: o que é o trágico? Se é impossível dar uma definição de trágico, o que é isso que pretendemos descobrir no romance de Camilo? A impossibilidade de descobrir um denominador comum que abarque todos os textos de carácter trágico faz com que nos debrucemos sobre as categorias trágicas, elas sim formas supremas de dizer o trágico. Segundo José Pedro Serra, categorias trágicas são “os traços fundamentais a partir dos quais se constitui aquela visão trágica do homem, do mundo e da vida”, “as diversas noções mediante as quais o trágico se expressa, ou, por outras palavras, os modos mais genéricos de dizer o trágico”, “formas primeiras de dizer o trágico, géneros supremos, cada um deles englobando várias concretizações, expressões da tragédia, mas eles próprios não subordinados a nenhum género superior”.
Para este capítulo teórico, não só o estudo de José Pedro Serra interessa. Outros estudiosos se debruçaram demoradamente sobre o problema do trágico. Assim, será necessário ter em conta autores como António Freire, Albin Lesky, Jaqueline de Romilly, Suzanne Said (que estudou particularmente La Faute tragique), Roberto Machado (que estuda o trágico na modernidade), Miguel de Unamuno, sem esquecer os primeiros que estudaram a tragédia e o trágico, Platão, Aristóteles e Horácio.
No capítulo seguinte, analisaremos, pormenorizadamente, os motivos clássicos presentes no romance em estudo, A Sereia. Se, na literatura setecentista portuguesa, quase sempre que um autor se referia a um mito greco-latino era como alegoria (por exemplo, Cupido e Vénus como símbolos do amor; Plutão como símbolo da morte, etc.), acreditamos que, na literatura romântica, os motivos clássicos surgem com uma função específica na narrativa, que não a simples alegoria (embora também aconteça). Assim, analisando os motivos clássicos presentes no texto, percebendo a sua função na narrativa, pretendemos mostrar como é obsoleta a ideia de que o romantismo se opôs peremptoriamente ao classicismo.
O capítulo que denominamos “A Sereia: construção do trágico” é o capítulo central da dissertação. Aqui, tendo em conta as conclusões a que chegámos no capítulo teórico sobre o trágico, faremos um estudo comparativo entre o manuscrito setecentista e o romance camiliano. Será feito um breve estudo sobre a transformação operada por Camilo nas categorias da narrativa, quer no plano da diegese (personagens, espaços, acção, descrição e tempo), quer no plano do discurso (tempo, perspectiva narrativa e autor/narrador/autor textual).
       Apesar da pouca noção que ainda temos de como estruturar este capítulo, pois pensamos que só depois de concluído o capítulo teórico teremos clara noção das categorias trágicas a estudar neste capítulo, é claro para nós que três das categorias trágicas estudadas por José Pedro Serra terão de ser analisadas: o conflito, o destino vs. liberdade e a culpa.

2.º) Recomendo, vivamente, os álbuns de Ana Moura (Desfado), Maria Ana Bobone (Fado & Piano), Carminho (Alma) e Rodrigo Costa Félix (Fados de Amor). 





quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sofista


Dicas críticas empíricas escritas sem mítica
Uma sátira artística prática e analítica
Gramática matemática toma a forma ensaística
Uso da argumentação e da retórica segundo a escola sofística


Política em fase crítica deixou de ser metade nítida
A importância é relativa num mundo a sair da fase cínica
Não se justificam grandes posses com uma classe laboral escrava
Já cá tivemos um filósofo agora um animal de carga

O povo pensa 'não há mal que traga', resigna-se ao fracasso
e mete uma pessoa no poder só para lhe poder chamar palhaço
Perpetua-se um ciclo onde a democracia é corrupta
Se metade da população não vota, é maioria absoluta.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Máquina de Fazer Tempo


Enquanto os alunos trabalham a ficha, o professor descansa os olhos no relógio. Os ponteiros informam três da tarde. Estamos numa sala de aula cinzenta e cheia de frio. Lá fora, o sol raia com toda a força. Os alunos não se impacientam para ir para o recreio, pois sabem que são três da tarde.

É agora tempo de estudar Petrologia. O relógio marca três da tarde. O professor ordena aos alunos que abram os livros de Estudo do Meio na página trinta e dois.

-O que é a Petrologia? – Pergunta um aluno.
-É um ramo da Geologia. É o estudo das rochas.

Professor e alunos parecem ficar satisfeitos com a resposta. Lentamente, os alunos folheiam o livro até à página trinta e dois. O professor explica as características de diversas rochas, assim como as datas de origem destas.

-Como sabemos que estas datas são verdadeiras? Ainda nenhum cientista era nascido! – Comenta um aluno, após ser autorizado a falar.
-O menino acha que se estivesse errado, estava no livro de Estudo do Meio? Se aí está é porque se estudou, se não se tivesse estudado não estava aí! – Balbuciou o professor, atirando-lhe um olhar severo.

Resolvida, e bem, a situação, estuda-se o resto da Petrologia agendada para esse dia. E quando o professor diz que para aquele dia chega de Petrologia um aluno pergunta:

-Professor, como sabe quanto chega de determinada matéria por dia e como decide o que é bom de dar em cada aula?
-É fácil. O Ministério da Educação desenvolve o programa que todos os professores devem dar. Depois, cada professor planifica anual, mensal e diariamente as suas aulas de acordo com esse programa. As planificações são depois validadas pelo agrupamento de escolas.

Os alunos parecem ficar fascinados com tanta organização. O relógio mostra ainda três da tarde.

Começa a fazer-se noite e os alunos, na sala de aula, tentam esconder a impaciência. O professor, já sem matéria planificada para este dia, improvisa agora ensinamentos à toa, sem nunca entrar em conversa fiada. Um corajoso aluno pergunta se não serão horas de irem todos para casa descansar. O professor responde:

-Não vêem que o relógio ainda só marca três horas da tarde?

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

sábado, 8 de dezembro de 2012

Naufrágio


Não me consigo mexer. Não quero. Não aguento esta dor que dizem que devia ser minha, porque ele longe e no alto, as nuvens. E depois esta gente toda que vem ter comigo como que a dizer-me com os olhos náufragos que o meu barco está partido e com uma qualquer falta de memória do que ser barco significa. Eu, nem marinheira sou. Eu não sei o que sou. Eu nem me consigo mexer.

Levantaram-me hoje. Sozinha não, que não sei fazer nada sozinha. Gostava de lhes poder limpar a certeza que eu nunca mais a mesma. Ouso ler nas entrelinhas que a dor que devia ser minha seria tanta que melhor assim, sem conseguir escrever o passado para dentro. Antes recalque do que lucidez. É isto que ouso ler e ninguém se dá conta que leio. Ele lá longe e alto, nas nuvens. E eu sem conseguir ver para trás porque sem pernas e sem braços utéis que me permitam mexer e ver. E mesmo quando eu peço, porque quero saber o que lá atrás da cama o bicho papão tem para me dizer, nunca é para trás que me viram porque o para trás é sempre uma nova frente, sempre sem respostas, sempre sem me conseguir dizer para que um barco serve, o que ser marinheira significa.



Não me consigo mexer. Melhor assim.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Olhar para trás, Náuseas, Acção


Quando até o ar pesa e as circunstâncias parecem obedecer à Lei de Murphy, o existencialismo parece irromper por entre a nossa idiossincrasia e o caos se afigura a paisagem de fundo. As hipóteses parecem infinitas mas o absurdo da espuma dos nossos dias parece condenar-nos. Qualquer réstia de esperança é uma procura interminável por entre as contas do Gaspar. Já os Relvas deste mundo pouco se importam que tenhamos apenas um episódio de vida. A prossecução da felicidade individual e da pólis devem surgir em parêntesis na equação das contas públicas. Aquilo que nos dizem ser um projecto de salvação nacional para um longo prazo ultrapassa tantas gerações que duvidamos que as vindouras ainda se lembrem de como tudo surgiu. E pegar num livro de História pode revelar-se aterrador. O sentido é o Eterno Retorno de Nietzsche. É o “subprime” de 1929 e a “Grande Depressão” de 2008; é o Tudo pela Nação e nada Contra a Nação dos dias de hoje; é a tensão nuclear fria no seio do bipolarismo em 1962 mas que podia perfeitamente opor Israel e Irão.

É então necessário olhar para trás. Organizar a teoria do caos e amenizar as náuseas que padecemos à semelhança de Roquentin. Nunca resolveremos o mistério da vida e nem temos tempo para isso. Procuremos então a estrada certa da bifurcação dialéctica que sempre atormentou a humanidade. Procuremos ser livres e não tenhamos medo da metamorfose sem esperar que nos transformem em insectos. Só poderemos evitar olhar para trás quando esse passado se confundir com o futuro desejado. Até lá, a política e a sociedade terão de ser reinventadas todos os dias numa Eterna Mudança que nos livre das náuseas, das Troikas e das profecias da desgraça. O amanhã será diferente apenas se o igual não for uma novidade para nós.

Frederico Aleixo

Sem Olhar Para Trás: os heróis e o destino camilianos


 J. Filipe Ressurreição

            Olhar, quer para a frente ou para trás, quer para o futuro ou para o passado, pode evocar uma acção de coragem seja por querermos recordar/saber o que aconteceu antes, seja por almejarmos saber o que nos espera depois do momento em que se olha. Esta coragem está presente em muitos dos heróis camilianos, não tanto por olharem em frente, mas por nunca olharem pra trás.

            Clássico da literatura portuguesa, obra-prima de Camilo Castelo Branco e do romantismo literário português, Amor de Perdição (1862) é exemplo flagrante dessa força de que falo.

            Simão Botelho e Teresa de Albuquerque amam-se. Camilo, através da sua escrita, dá a entender ao leitor que aquele é um amor inquebrantável. Mesmo antes de sabermos o nome de Teresa, temos já acesso à história do tio do autor. Na “Introdução”, depois de transcrever a assento de entrada na cadeia de Simão, informa-nos o autor textual: “A passagem do seio da família, dos braços de mãe, dos beijos das irmãs para as carícias mais doces da virgem, que se lhe abre ao lado como flor da mesma sazão e dos mesmos aromas, e à mesma hora da vida! Dezoito anos!... E degredado da pátria, do amor, e da família! Nunca mais o céu de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem reabilitação, nem dignidade, nem um amigo!... É triste!”

            Note-se, antes de mais, nas várias enumerações quase consecutivas e na pontuação utilizada: nunca um ponto final; sempre pontos de exclamação, seguidos ou não de reticências. Umas e outra têm a clara intenção de intensificar a história daquele moço, por si já de grande intensidade, junto do leitor.

            Depois deste parágrafo, tinha Camilo escrito no seu livro até à segunda edição: “O leitor decerto se compungia; e a leitora, se lhe dissessem em menos de uma linha, a história daqueles dezoito anos, choraria!” (itálicos meus). Contudo, o escritor oitocentista descobre a frase que, “em menos de uma linha”, conta a história de Simão, corta o excerto que acabo de transcrever para ser substituído pela frase “Amou, perdeu-se, e morreu amando.” É das poucas frases categóricas desta “Introdução”. Além disso, tal como a oração do capítulo II “Simão Botelho amava.”, também esta é uma frase lacónica. Outra das funções desta sentença, que constitui ela só um parágrafo, é a de ser um dos elementos do capítulo introdutório, juntamente com o título do romance, que inicia a ironia trágica. De facto, ao iniciar o capítulo I, o leitor sabe já tratar-se aquele amor de um amor de perdição, sabe também que Simão será preso, desterrado para a Índia e saberá ainda que “[a]mou, perdeu-se, e morreu amando”. Quando no romance é mencionado algo que possa contrariar este desenlace, sabem j que ﷽﷽﷽﷽﷽r de perdiçranscrever para ser substu sazçaoá os leitores que é vão por terem conhecimento de aspectos que as personagens não têm, neste caso da inevitabilidade da morte.

            Uma vez que falamos da famosa frase de Amor de Perdição, cabe perguntar: quem ou o que amou Simão? Por quem ou pelo quê se perdeu? Por quem ou pelo quê morreu amando? À primeira questão, penso que é possível responder, com certeza, que se refere a Teresa. Podem os leitores do romance considerar que esta seria a resposta às três perguntas formuladas. Apesar de ser, nas duas últimas há que acrescentar algo. Na verdade, Simão perde-se, ao matar Baltasar, por amor a Teresa mas também por amor à sua honra ferida. E no final do romance, Simão morre, amando Teresa mas amando também a vida (“Ânsia de viver era a sua; não era já ânsia de amar”).

            Em Amor de Perdição assistimos a um amor contrariado entre Simão e Teresa. Na verdade, a inimizade entre os pais dos heróis, Domingos Botelho e Tadeu de Albuquerque, parece ser aquilo que separa os amantes apaixonados[1]. E de facto é, no mundo terreno. Porém, através das páginas do romance, percebemos que há algo superior a isso: a força do destino é superior a qualquer ódio ou amor. Podemos, talvez, aceitar que os pais de Simão e Teresa são os agentes dessa força implacável. Com efeito, o trágico de Amor de Perdição parece-nos que reside nisto: o destino inexorável abate-se sobre dois jovens amantes, e estes não se contentam em a ele se resignarem; os heróis lutam contra uma fatalidade que os esmaga. Não desistem nunca. E é nesta luta contra o destino, mesmo quando têm consciência de que perderão a batalha, que reside toda a tragédia destes dois jovens, cujo único crime que cometeram foi amar.

            Melhor talvez seria dizer que essa força de que falamos está intimamente ligada a Simão, e só por consequência disso é que se abate também nas personagens que ao herói estão ligadas[2]. Afirmamo-lo com convicção porque o romance, tal como acontecia na tragédia grega, segundo Jacqueline de Romilly, “não deixa de indicar, para além do homem, forças divinas ou abstractas que decidem da sua sorte e decidem sem apelo”. Assim, “Simão sabe-se marcado por um Destino”, diz-nos Jacinto do Prado Coelho, e sabe também que todas as pessoas que a ele se unirem serão também vítimas dessa fatalidade; também Mariana tem conhecimento dessa força em Simão; a própria mãe do herói, ao escrever-lhe, dá conta do “fatal destino [que] não quis largar a vítima” ao nascer, uma vez que era falsa a notícia de que Simão tinha nascido morto.

            Mas se há uma força que actua sobre Simão e contra a qual ele luta mesmo tendo consciência da sua vanidade, há também, no romance, outra força não menos importante: o amor. E destas duas entidades surge, inevitavelmente, o sofrimento. Maria de Lourdes A. Ferraz evidencia esta causa do sofrimento quando diz que, “no que respeita à diegese [dos romances camilianos], tudo se resolve em torno de um conflito cujo fulcro é sempre o amor. E uns amam bem (servem o amor), outros amam mal (servem-se do amor). Aqueles ou aquelas são sempre recompensados, ainda que seja com a libertação da morte, estes ou estas são ou castigados ou recuperados pelo arrependimento.” Na primeira carta de Teresa a Simão, a menina já lhe diz: “Não me esqueças tu, e achar-me-ás no convento, ou no Céu, sempre tua do coração, e sempre leal.”

            Durante o caminho percorrido, as personagens que “amam bem (servem o amor)” mostram-se umas vezes corajosas e prontas a lutar contra um destino implacável, mas mostram-se igualmente aceitando esse destino que é a morte. Mostram-se, acima de tudo, sempre altivas e prontas a avançar, sem medo, sem olhar para trás.



[1] “O pai de Teresa não embicaria na impureza do sangue do corregedor, se o ajustarem-se os dois filhos em casamento se compadecesse com o ódio de um e o desprezo do outro. O magistrado mofava do rancor do seu vizinho, e o vizinho malsinava de venalidade a reputação do magistrado. (...) Seria impossível o reconciliarem-se.”
[2] Por exemplo, diz Simão: “Tanta gente desgraçada que eu fiz!...”

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Contrariedade (não o de Cesário Verde)


Procurar a imensidão de um espaço confinado à sua latitude,
Repetições de uma vida nada rotineira. Gotas de chuva à minha porta.
Medicação para uma paranóia distante daquilo que é a sua identidade
Um Sol tapado pela luz de um dia claro. Uma clarabóia.

As lágrimas vindas do céu param em pleno céu aberto, fechado na sua órbita
Sem poder de respirar pára, qual foto de momento. Silêncio.
Cama farta de estar aberta numa casa vazia de tanto preenchimento
Falta de um toque suave nesta rocha. Texturas mortais neste pão de vida.

Estarei aqui à sua espera, neste sofá isolado de cortinas
Estendo a mão por algum carinho não imediato. Paz de espirito.
Procura-me numa das luzes daqueles prédios altos, a roçar a liberdade de espirito
Estou aqui sentado por ti. Sem termo, sem suspiro.

Eduardo Coreixo, o regressado por momentos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Caminho



Estudo nutre verdade
Contudo, nada encontrado sem tudo estudado.
Cultura é aventura. Procura um resultado.
Procura agora a cura para um mundo derrotado.

É tarde.
Mantém-se o poder, mantém-se a vontade.
Muda-se o tempo.
Muda-se o estado. O dia renasce




terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Homenagens





Ao andar por várias horas na wikipédia, de hiperligação em hiperligação, deparo-me com esta biografia do poeta esquecido, Orlando Preto.

Orlando Preto (Mafra, 11 de Outubro de 1963 – Paris, 24 de Agosto de 1989) foi um poeta, músico e contista português. Nascido em Mafra, passou a maior parte da sua vida nos subúrbios de Paris, lendo livros que o Pai comprava para engrandecer a sua pequena biblioteca pessoal. Daí ganhou o gosto pela literatura, da rádio, o gosto pela música: aos 9 anos aprendeu a tocar guitarra, e aos 13 já compunha com alguma maestria.

Acabou o liceu e executou diversos ofícios, acompanhando-os com espectáculos musicais em bares de alguma má fama, tocando com figuras famosas daquele pequeno círculo. Mas, se na adolescência lhe deu para a música, é com o entrar na idade adulta que começa a escrever poemas e contos.
Um amigo, que pediu anonimato, conta numa entrevista:

“Começou a escrever cada vez mais poesia quando se enrolou com a Eugénia. Vivia para duas coisas: para escrever e para aquela miúda. Ela era de boas feições, não se pode negar, mas ele só via aquilo à frente. Bem, por um lado foi bom! Acabou por publicar um livro e ganhar uns trocos”. Mas eu acho que aquela moça é que o fez perder o tino de vez”.

Grande fã de Cocteau e Jorge Luis Borges. O seu escritor preferido era, contudo, César Paladión, autor que admite ter lido “de uma ponta à outra”. Admirava a genialidade acompanhada de grande versatilidade de Paladión. Disse um dia numa coluna de um jornal local de Paris:

“Penso que se há em algum autor algo de perfeito, César Paladión é o nome para o adjetivo. Quem mais reúne tantas e tamanhas virtudes literárias, que vemos dispersas em todos os outros adamastores das letras?”.

Com a mudança de Eugénia, seu grande amor, para uma aldeia do sul de França, deixa de escrever e passa os dias a curar uma depressão grave e crónica. Emagrece e sobrevive, pouco fala, não toca guitarra. Em 1989, decide ir ao sul de França com o objectivo de resgatar Eugénia das garras de uma família que abusava constantemente dela, sujeitando-a a trabalhos pesados e forçados. Orlando falava muito aos seus amigos em desposar Eugénia.

Chegado a casa dos pais de Eugénia, agarra-a e fá-la correr atrás de si, aconselhando-a a nunca olhar para trás, dizendo-lhe que faria o mesmo. O pai de Eugénia, ao perceber a acção de Orlando, agarra uma espingarda para impedir que os amantes fujam. Prometendo-lhe que a salvaria, lança ainda um último olhar para trás que é focado pela mira da espingarda. A bala atravessa-lhe o crânio e atinge ainda Eugénia. Conta-se que, apesar de tamanho sobressalto, ambos morreram com um sorriso nos lábios.