quarta-feira, 28 de maio de 2008

Probabilidades Invisíveis


Mediante esta prisão, cheguei a certas conclusões, sabes? Perde-se o tempo que está para vir, porque tudo o que está para se dizer está igualmente perdido, toda a visão já desapareceu.
Capa desmedida de um herói morto pelo pó da prateleira suja.
Boneco de cabeça rota
Deslizante por ti
Porque nesta prisão está abafado pelo silêncio
Beleza selvagem a preto e branco
Quebravelmente prateado com o metal das grades.
No escuro olhando para o furo da parede
Baú fechado pela melancolia das saudades,
Este quarto sujo e empoeirado
Qual prisão perpétua de memórias e perdições
Pela razão de não ser, fecho a boca, e sonho.
O céu está no caminho, a melhoria do toque profundo
Deixando os nossos lábios a descansar
Juntos, unidos através destas grades quebradas.
Flores pretas, água escura perdida
Engolido na solidão contigo ao lado,
Tocamos as mãos no espaço do tempo
Em que ficámos parados a olhar a presença
A saborear os lábios juntos.
Eduardo Coreixo

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Falta


Fazes-me falta, é isto. E não é simples, não é pouco, nem tampouco quer dizer alguma coisa mais do que o que quer dizer - e só por isso é muito e complicado. Nem é bem saudades, não é bem I miss You num ursinho de peluche que chegou pelo correio Azul. É Sentir falta. Daquela que não se diz porque dói, daquela que dói em proporções que são só nossas, daquela que ninguém tem o direito de dizer que nos compreende. Nossas. Eu não compreendo a tua dor. Nem quero. Que se fodam os hipócritas. Sem prazer.

Carne. Apatia. Mais carne, mais apatia. Faltam-me varinhas de condão. Falta-me o ar, muitas vezes - mas só por não saber respirar. Acho que tenho um viver asmático. Doente e viva. Não interessa muito. Continuando. Falta-me a certeza de ser aquilo que sou, para que os dedos me possam apontar sem que me firam. Falta-me um juramento cumprido, com o prazo a esgotar-se, porque os dias são tanto a mais como a menos. Faltam-me beliscões nos braços para ter a noção que sinto, falta-me a saudade no corpo do sentir. A apatia e a carne como a maior anestesia. Farta.

Farta de gente que diz que admira e depois nem sabe mirar como quem diz ver o que está à frente. Farta de soluços por falta de soluções, de teorias da conspiração, da falta de varinhas de condão ou, vá lá, gente sincera. Da podridão a que isto está a chegar e da sensação de ser sempre a descer, a partir daqui. Também me farto constantemente de gente perfeccionistaederrotista, tudo junto. Acho que já percebeste a ideia. Interessa-te?

Faz-me falta sentir. Mas depois também sentir que o meu mundo se resume a mim deitada com a nuca apoiada no teu macaquinho do chinês e do teu riso na minha boca. E depois tudo o resto. Fazes-me falta. Que se fodam os clichês. E os hipócritas.



Esquece-me e segue a tua vida, para que eu possa voltar a ti. Tens-te muito em conta e só devias ter dúvidas.
É contigo. Já nem me atrais.




quinta-feira, 22 de maio de 2008

A minha hora do conto (distante)


Querem crescer para lá do outro mundo. Querem cheirar a relva ardente de sabor. Querem saltar pulos de conveniência para serem heróis.
Os putos querem ser os maiores dos mais pequenos, as sensações que quebram uma pedra, querem viver a vida como se fosse algo de maior.
São eles a voz de quem acredita na razão, na inspiração que desacredita, o corte que sangra, o beijo que não ama, o toque que não sente, mas hoje tudo é fácil, porque querem e sabem o que querem, porque o querer é facílimo quando tudo o que queremos é simples. Tocam as flores e elas rejuvenescem em auréolas de fino sem-sabor, porque o material é apenas a mistificação da vontade de chorar.
Anjos de asas quebradas, árvores de ramos caídos, dança sem pés para dançar, pão sem manteiga, azul sem cor, pensamento sem alma. Tudo não passa de uma criação de brincadeira, de gritos rejuvenescedores, de fatias de felicidade.
São eles, os putos, não os que andavam à volta da fogueira, mas o que mostram o que é viver.

Eduardo Coreixo

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Hora do Conto


Era uma vez uma rapariga que tinha apetites do ser contra, desejos noctívagos de limpar o pó e o sótão e de pintar as paredes de vermelho e ansiedades de vertigens que não a deixavam dormir. Era uma vez um rapaz hipocondríaco que conhecia tão bem os sintomas da vida que a apontava como o cataclismo de todas as faltas e angústias que faziam parte de si. Mas principalmente, era uma vez um livro.

Eu explico. Esta rapariga não falava, este rapaz não ouvia. Até se verem, ela andava sempre com o seu livro preferido pousado na mão e fixo nos seus olhos. Tanta vez o lera que pensava não conseguir dizer outras palavras que não aquelas, se algum dia viesse a falar. Ele, ele só ouvia as palavras do seu Cinema mudo. E ela começou a aparecer na sala vazia, repleta dos ecos que ali não se ouviam e que não lhe perguntavam nada. Se perguntassem ao livro, também ele gostava de lá ir. O silêncio das palavras.

Houve um dia em que se sentaram lado a lado, ele e ela, sentaram-se tão perto da tela como se lá quisessem entrar. Viram um melodrama daqueles que puxam para o romance. Então ela sussurrou: Cheiras bem. Ele sorriu. Ela disse: tens olhos bons. Ele compreendeu. Ela perguntou : posso ver-te outra vez? E ele olhou para ela. Olhou, como quem diz ver, num único sentido de a beijar, porque ainda não a tinha visto e achava- o impossível. Ela embaraçou-se e foi-se embora. Deixou o livro.

Então, enquanto as paredes ficaram vermelhas e o calendário nocturno custou mais a passar por ela, ele leu cada palavra que ela tinha para dizer. A história de uma menina muda que coleccionava ímans de frigorífico, dava beijinhos de borboleta, acreditava em happy endings e tinha desejos noctívagos que não a deixavam dormir.

O corpo dele nunca mais teve um dia sem temores nem tremores: sem ela, foi o ar pequenino, foi o chão incerto e felino, foi a terra uma constante tontura de 50º à sombra. Ela aparecia sempre às terças e quintas à procura dele, do livro, ele às quartas, por ser o dia de folga da menina do livro.

Quando ele desistiu, o livro continuou lá. E quando ela o encontrou e chorou de alegria e de tristeza como bem sabe o coração, encontrou letras sublinhadas a encarnado, dispersamente ao longo do livro. O peito dela pulou, fez a festa, lançou os foguetes e sentiu-se feliz. Quando foi a vez de ler o livro pela infinita segunda vez, descobriu uma pessoa nova nas entrelinhas. Deitou-se feliz e o livro também.

"O..Lá. Tens a pele mais suave que tocarei, o cheiro de madeira quente em alto- mar, as ondas mais perfeitas nos teus cabelos e o triângulo das bermudas perto da água dos olhos. Eu tenho a mania das doenças, das alergias, das comichões e males internos. Não sei ouvir, mas nunca ouvi nada tão lindo como o que me dizes. É assim.És a melhor doença que alguma vez já tive. "
.
Palavras - chave :
luar, pavio, Destino

Fumando o dia (continuação de ontem)


Nada se faz na volta de quem desespera.
Beijo perdido, beijo andante de costas voltadas para a vida
Chora a razão de quem padeceu pelo arejar da mente
Grita a mortal sensação de viver sem medo.
Cada dia que passa, é peixe em lago congelado,
É folha de cor garrida em plena tempestade
É pato desmembrado pela bactéria flutuante
É trabalho de secretária sem voo maior
É morte sem certa, no dia 30 de Fevereiro.
Qual deslize certo,
Cai a força sem sabor na aurora desfeita pelo sol,
É o lançamento de mais um perdido no lambirinto
Porque amar sem o saber, é força irreal
É poder desviado da sua natureza.
Dia de lembranças esquecidas pelo tempo,
Dia de escritas transparentes, numa folha de tabaco.
Eduardo Coreixo

domingo, 18 de maio de 2008

Arranjar o arranjado


Quero ser uma bola de cristal, prever o futuro
Quero ter alma de poeta, criar sem saber o que crio
Quero saber fumar o mundo, passar os dias sem saber deles
Quero ser criança, espreitar a verdade sem malícia.
Quero amar, para saber qual é a sensação de ser útil
Quero escrever nas pedras, para saber o que é o difícil
Quero ser vela de chama acesa, para sentir o calor
Quero correr para a água, para criar a ilusão de leveza.
Nada disto me é estranho, mas aspiro a sensação de me sentir vago
Quando vagas são as horas que já rolaram
Quando fala o gato pardo de listas lisas
Porque alma que fala, perde o gosto de saber do mundo,
E vontade que se expressa, não passa de motor sem vida.
Morreram as razões desde ontem, tempos abençoados
Mortes nucleares de quem quer mudar o branco.
Três espadas na cintura, não significam poder,
Significam a injustiça, porque eu, escritor-vítima
Enfrento a vida apenas com uma lâmina e uma caneta.
Corro, para perto do mundo.
Ganho asas de Pégasos, e fico preso na mudança de sóis
Porque vida de alma mater já se foi.
Hoje sou Eduardo, pequeno pião na arma atómica da inspiração
Criador da minha imaginação de aviões e carros de doce
De levezas impossíveis, de amores concretizados.
Eduardo Coreixo

Knock knock


Posso entrar?


Estendam-me o caminho, limpem-me as pedras e os olhos, enfeitem o meu pó de arroz, tragam-me a namoradeira, o chapéu de sol bordado a delicadezas e um espartilho que me esparte e aparte para onde mais longe conseguir ir a minha imaginação. Se a luxúria é pecado, tenho na guerra a coisa mais limpa cosmopolita e trago mas deixo o Futuro à porta, porque bem sei que aqui não se aceitam animais de estimação, vícios indesejados ou dias partidos e estilhaçados nos ses.

Precisava de compreender umas coisas. Não compreendi nada, mas que se dane, que danada fico muito mais bonita, como tu insistes e dizes que assistes. Eu aprendi a estar calada, quanto fica bem a uma senhora. A vontade é minha, o ferro e a força faltam-me. O vidro, ai, o vidro dava para um conto e meio, se os contos ainda nos valessem. Mas o que tenho mais de minha é a ignorância e Deus sabe o quanto lhe agradeço. De tantos sinais, vieram as sardas. De tantas sardas, eu vi estrelas e céus despidos. De tantos céus que nunca foram cópias das cópias de um céu original, encontrei-me sem perceber nada e, no entanto, feliz.


E hoje sou senhora de voltar, desde que não me perguntes quem sou.

sábado, 17 de maio de 2008

Hora do Conto

Querida amiga, aceita estas palavras que tentarão, de forma com certeza deficiente, retratar-te a minha vida, e o momento pelo qual estou a passar.

Levanto-me de manhã e nada tenho a fazer, já nenhum raio de sol me surpreende e quando olho pela janela há sempre nuvens a bloquear a alegria de viver, a que tive durante outros tempos. Vou à sala de estar e espero por um ruído em minha casa, que me mostre que estou acompanhada, em vão…Esqueço-me muitas vezes que o António me deixou há já sete anos. A única companhia que tenho é a da minha filha Francisca que me vem dar um beijinho, de quando em vez, quando o trabalho lhe permite, e os livros sobre o fado de antigamente, na força dos anos sessenta, nos nossos anos.

Lembro-me tantas vezes quando íamos as duas na rua a cantar, ou cantávamos a convite de cavalheiros, no barzinho que gostávamos de frequentar. Costumávamos dizer que enchíamos as noites de magia, costumávamos dizer que havia uma carreira na música à nossa espera. Mas conhecemos os nossos esposos e todo esse sonho ficou adiado. Tenho pena. Sinceramente, ainda hoje creio que teríamos sido alguém nas cantorias, talvez não muito conhecidas, mas certamente profissionais. O que é certo é que acho que, nem eu nem tu trocaríamos a vida que tivemos, apesar de tudo.

Tenho hoje setenta anos e espero nada mais que o meu último dia. Não há já nada que me faça rejuvenescer o espírito, cansado e velho, e espicaçado por tudo o que vejo hoje.

Ontem fui acompanhar o meu neto à Serenata a Lisboa. Que bonito que ele estava, todo trajadinho. Senti orgulho no orgulho que ele sentia em pavonear-se com o traje da sua faculdade, que coisa linda, que noite bonita. Já não bem como dantes, pois a tradição já não é o que era, e creio que no tempo a seguir às folhas caídas do meu neto, no seu Inverno, ainda existirá esse provérbio, pelo que ele ainda o poderá dizer relativamente à Serenata a Lisboa dos netos dele, mas isso, já eu não verei, e ainda bem.

Porque viver é isto mesmo, efemeridade, num dia somos tudo, no outro nada, num dia somos jovens e temos o sangue na guelra, no outro somos velhos e esperamos o nosso fim, e nesta vida, não há já nada que cá me prenda…

E é por isso minha querida Amália, que tenho pena de não termos cravado o nosso nome na história da música. Assim, poderíamos morrer descansadas, que sempre por cá ficávamos, para nos escutarem ao menos nas notas mais suaves das nossas belas vozes, adultos, crianças, ou idosos, porque a música é para todos, e não precisa de ser compreendida por todos, porque só a melodia separada da compreensão, já consegue tocar os mais rígidos corações. Porque a música e bela, e nós não ficámos na sua história.

Se ao menos tivéssemos tentado e lutado para cantar…

Da tua amiga que continua a adorar-te:

Simone.



Eduardo Rilhas



palavras chave:

corpo, doença, nocturno.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Janelas Opostas


Hoje acabo por escrever a mim mesmo
De arma apontada à minha cabeça, de mãos no chão,
Entregando-me facilmente ao vazio de lugares de ar.
Caras conhecidas pelo passar do tempo,
E nada de histórias falsas, porque assino com o meu nome
Sem encontrar cura para a maleita do feitio ultrapassado.
Sou apenas humano, no fim destas contas feitas
Porque piso o meu próprio pé,
Estalo os meus dedos, e a o espírito quebra-se em dor.
A cada dia que passa ajudo-me a colocar as minhas peças todas juntas,
Sou a minha segurança, sem falsidades misturadas.
Mudo-me para modo desespero.
Escondo-me, enquanto o espectáculo do dia passa aos meus olhos
E sem aguentar tanta pressão, vens, tu, alma amada,
Poder em sobressaltos para me agarrares e trazeres o futuro.
Sopro a sorte para fora do meu ombro
Inspiro a chuva de raios de sol,
Bocejo no dia de praia agitado
Toco o ar de verão que desapareceu do teu esticar de braços.
Tempos calmos,estes, os da minha alma tua
Resta-nos a música. A tua guitarra. A minha letra.
Dias destes. Momentos daqueles. Escritas passadas.
Eduardo Coreixo

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Hora do Conto

A noite ia a meio. Um corpo cansado encontrava-se deitado numa cama de solteiro, pronto para adormecer a qualquer instante. Tinha posto a dar no seu DVD aquele concerto que o encantava e o fazia descontrair nos momentos que mais precisava. Por fim, o cansaço venceu a meio daquela cantiga que tanto ouvia.
No dia seguinte, Santiago acordou com o despertador. Era tão cedo mas a faculdade esperava-o para mais um dia de rotina que ele odiava. Tomou o pequeno-almoço a correr e saiu para o ar fresco da manhã. Antes de apanhar o eléctrico, foi-se inscrever para tirar a carta de condução. O desejo de conduzir um carro era o seu maior sonho desde que fizera os 18 anos e agora podia concretizá-lo.
Mas Santiago não sabia, nem podia saber, que aquele dia seria o último da sua vida e o primeiro de uma nova. Ninguém advinhava que assim fosse.
O dia decorreu com toda a tranquilidade que ele estava à espera. Os pais telefonaram-lhe para saber como estava (desde que tinha saído de casa para vir estudar para outra cidade, que os pais lhe telefonam todos os dias).
Durante a tarde, dado que tinha um furo de três horas, decidiu sentar-se na esplanada com o seu mp3. Acendeu um cigarro e ouviu uma voz atrás de si:

-Desculpa... Podes me emprestar o teu isqueiro?

Santiago perdeu a noção de tempo e de lugar. Uns olhos verdes dirigiam-lhe a palavra. Um cabelo longo de um castanho arruivado esvoaçava ao vento e... o tempo parára.

-Sentes-te bem?! Precisas de alguma coisa?
-Não, não! Obrigado. Foi só uma pequena distracção. Aqui tens o isqueiro.

Aquela imagem acendeu o seu cigarro e devolveu-lhe o isqueiro.

-Queres-te sentar enquanto fumas?
-Oh... Gostaria imenso mas tenho pessoas à minha espera.
-Ah ok. Não faz mal. Fica para uma próxima.
-Sim. Não irão faltar oportunidades. Bem, adeus.
-Adeus.

Já a rapariga se afastava quando Santiago se lembrou. Não lhe tinha perguntado sequer o seu nome.

-Diz-me ao menos o teu nome! - ainda gritou.
-Madalena. Chamo-me Madalena.
-Prazer... - murmurou Santiago para si.

Naquela altura sentiu que tinha ganho o euromilhões (coisa que nunca joga), sentiu que o seu coração explodia intensamente.
Durante duas ou três semanas, tudo se repetia de novo. Todos os dias, sem excepção. Madalena pedia-lhe o isqueiro emprestado mas nunca podia ficar quando Santiago a convidava a sentar-se para fumarem os dois enquanto conversavam.
Um dia, Madalena decidiu sentar-se e Santiago não se conteve e a meio de uma conversa balbuciou a medo:

-Adoro-te...

Madalena deu uma passa profunda no seu cigarro, deitou fora o fumo e apagou-o. Depois, virou-se para Santiago e quando este lhe ia dizer qualquer coisa, esta colocou o seu indicador na boca dele de maneira a que se calasse.

Depois... beijou-o.

Jorge Filipe da Ressurreição


próximas palavras chave: fado, Simone, anos 60

Diminuído

Hoje vou escrever o meu nome com letra minúscula.
Hoje o meu ego vai caber na porta de entrada.
Hoje não quero saber de ti, hoje não quero saber de mim...

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Hora do Conto

Fábio era um rapaz bem sucedido com as raparigas e com o emprego. Tinha tudo o que queria e uns pais que lhe davam mimo extra por ser filho único. Fábio tinha, pois claro, uma namorada lindíssima, com um cheiro distinto das outras, que ele reconhecia a quilómetros. Ela era a Elisa.
Não era que Fábio fosse algo por aí além em termos físicos, mas era um rapaz muito bem parecido, e com um charme fabuloso que cativava muito a 'claque' feminina.
Elisa, pelo contrário, era pouco dada e não era muito encantadora, mas a sua beleza fazia corar até os príncipes encantados dos contos de fadas.
Não interessa para a nossa hora do conto fazer grandes descrições Tolkianas ou Queirosianas, porque quero que o leitor dê asas à imaginação para imaginar a cara destes personagens e o seu traço e perfil, ou ainda, se quiser, se inserir dentro da pele destes personagens.
A dada altura das suas vidas, Fábio recebeu um convite para ir trabalhar 3 anos para o estrangeiro, ganhando um dinheiro fabuloso, e teve que se despedir de Elisa. Na despedida, Fábio disse que não poderiam continuar o seu relacionamento e Elisa admitiu que, realmente as condições eram más para que o noivado se segurasse.
A nossa personagem masculina segue e viagem e rapidamente se aproxima de várias raparigas, tendo várias más experiências, inclusive uma que andou um ano a extorquir-lhe dinheiro.
No seu caso, Elisa esperou... Mas, ao saber das notícias do seu ex companheiro, decidiu que estava na hora de ter uma nova vida.
Quando Fábio voltou, estava sem dinheiro do trabalho que tinha feito, estava sem vida e teve de pedir uma grande ajuda aos pais. Decide então que ao menos redimir-se-ia com Elisa, tentando que esta voltasse para ele, estando à sua espera, fielmente. Puro engano. Elisa já estava casada e tinha agora uma família, pois estava à espera do seu primeiro bebé.
Arrependimento, foi o que Fábio teve até ao resto da sua curta vida, arrependimento por ter sido guloso e ter aceite emprego fora do país quando estava para casar com a mulher mais perfeita para ele, arrependimento por ter sido egoísta e não pensar que levava alguém a sofrer, e acima de tudo por ter deixado toda a gente ao seu redor desiludidos.
Sem nada e sem razão de se manter vivo, não esteve em Portugal mais do um ano, e partiu, para debaixo da terra, com um tiro no cérebro, de forma a estragar o que lhe tinha estragado a vida, a racionalidade...

próximas palavras chave: euro milhões, DVD, carta de condução.



Eduardo Rilhas

terça-feira, 13 de maio de 2008

Parabéns



Tenho o meu coração em tela branca


Tenho os meus lábios nas pedras da calçada


Tenho as minhas mãos na nascente daquela fonte


Tenho o sorriso perdido na tua face


Tenho o amor achado, nesse mar perdido.


Tudo é transcendente,tudo é fácil de querer


Tudo é quilograma adicionado à realidade


Tudo é uma merda de uma viragem


Tudo é uma vivacidade contornada.


Descobri hoje a finalidade


Descobri hoje a fatalidade


Descobri hoje a futilidade


Descobri hoje a funcionalidade


Descobri hoje a tua mente apaixonante.


Descobri-te.


Eduardo Coreixo

domingo, 11 de maio de 2008

Invejas e competições




Não vale a pena, eu sou o melhor. Não tenho nada e sou o melhor. Tenho confidências, tenho brincadeiras, e tenho-a a ela... E o facto de me acharem o melhor, prova que sou o melhor. Não vale a pena injuriar e escrever por cima do que eu escrevo. O que escrevo fala ao coração. Tu, as vezes nem à piada falas. Não vale a pena provocar, eu não vou responder. Não vale a pena pensares que tens uma pequena vitória um dia, que eu estrago-te o prazer. Eu ganho por cima de ti. Não vale a pena tentares agigantar a arte plástica à escrita. A escrita ganha a fúria de palavras e engole algo muito bonito. Não vale a pena... Podes ser melhor que eu em alguma coisa que seja, mas nunca o serás porque eu sou o melhor para ela, e então sou melhor em tudo. Não vale a pena, eu sou Júlio Cesar, veni vidi vici...

pronto, não mereces mais que isto.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Dar-vos-ei, Emprestar-vos-ei

Serei o mais breve possível. Darei tudo de mim na poesia que vos der. Emprestar-vos-ei o que conseguir na prosa que vos mostrar. A poesia é vossa. A prosa é minha. A poesia é do mundo, a prosa é pessoal.


Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
(...)
Poeta castrado, não!

Ary dos Santos

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Novo começo

Parece que o blogue está em declínio,porque estamos a perder escritores...Mas prometo que vamos voltar em força...
Até já.

Farto disto e daquilo


É impressionante como as pessoas se esquecem daquilo que lhes foi dado na mão.
Choca-me a facilidade com que perdem as razões pelas quais as coisas lhes foram dadas na mão, sem esforço, porque por uma razão ou outra, eu acho que tudo tem uma ponta de cinismo, um toque de falsidade.
Lembro-me quando toda a gente visitava o blogue, e dizia que era fabuloso, e isto e aquilo, e hoje acho que ou era uma forma de ter assunto de conversa, ou apenas uma forma de mostrar que tinha um pouco de integridade cultural. Desculpem-me a dureza, mas de facto, dói-me pensar que as pessoas perderam aquela característica que se chama "integridade", ou até "verdade", e não admitem que este espaço era apenas mais um...Eu acho que precisamos de uma revolução, e acho que com isto tudo dito, falta-me dizer sobre isto que desistir não é a razão, apenas a consequência.
Hoje estou negativo, raivoso, do pior mesmo, mas pessoas que marcam coisas, e depois à última da hora decidem coisas contraditórias, enfim, para mim é algo que não dá comigo. Eu acho que o compromisso já não existe, apenas há a palavra, a comum, porque a final, aquela de honra, já se foi à muito...Ui, onde ela já não vai!
Perdoem-me pois as pessoas que se identificam com o que aqui escrevo, não é nenhum ataque pessoal, é apenas uma maneira de explicar o porquê das coisas, o porquê das atitudes, ou no mínimo, apontar aquilo que está errada, entendem? Acho que todos precisamos ser chamados a atenção, porque ninguém tem a certeza do que está certo ou errado, e se um pontapé na cara demonstra o extravasar de raiva ou de defesa, pode também ser aplicado como um escape a qualquer coisa...Eu, prefiro a escrita, mas quem sou eu para julgar, hein?
Qualquer coisa que tenham a acrescentar, é só deixar comentário, que prometo responder o mais depressa possível, 'tá?
Vá, até logo.

Eduardo Coreixo

terça-feira, 6 de maio de 2008

Respirar fundo


Mudam-se os tempos, mudam-se as ventanias
Mudam-se as vontades, mudam-se os objectivos.
Nas curvas desta vida, como alguém o disse,
Ficamos com cabelos brancos de tanto esperar que aconteça aquilo
Porque mudam-se os momentos, mudam-se os mundos
Mudam-se as fotografias, mudam-se as pessoas.
Neste quadro que pintei, não vejo as manchas que planeava
Vejo a euforia de traços direitos, riscados a rigor,
Alternando com o branco da tela, aquele que não está pintado
Assim que se acabou a inspiração,
Naquela hora em que resolvi parar de sonhar, ainda ontem o foi.
Não choro, porque serei cobarde ao abandonar a seriedade,
Mas desejava saber o que fazer quando se acaba a ilusão,
E quando começa a pertinência de acreditar no real
Porque, eu, não, quero, ser, eu,
Quero, ser, a, minha, triste, imagem (penso a soluçar).
Estrada longa que tenho na palma do dedo,
Enforcada por este anel que uso com todo o orgulho
Mostra que a vida não passa de um túnel pouco iluminado,
Uma imagem fotográfica esbatida pelo tempo
Que a memória teima em não clarear aquando da sua passagem.
Sou morto inspirador, poeta de alma cara,
Arma de fogo entupida, classificação quantitativa
Folha sem ramo, relva sem verde
Amor sem desespero, escrita sem tinta.
Inspiro a vontade, não a ausência.

Eduardo Coreixo

domingo, 4 de maio de 2008

Agradecimento

Estou de luto.
Saiu por porta fora um talento puro de enigma, mistério puro, o meu diamante de escrita favorito, peço desculpa caros escritores por esta sinceridade.

Estou de luto.
Perdeu-se hoje, nesta madrugada imunda de cheiro, aquela que foi a fundadora deste movimento quase parvo, mas que aos poucos ganhou as formas possíveis de cores pela escrita desta menina de talento gigante.

Estou de luto.
Faltam-me as palavras, e tremem-me as mãos de tanto suar, por não saber o que te escrever cara amiga. Compreendo-te, e sei que dentro em breve irás voltar para este mundo que é meu e teu principalmente, pois então desculpem-me os outros escritores, porque era ela a iniciadora.

Estou de luto.
Foram-se as palavras que ela iria escrever para nosso gáudio, todas as imagens penetrantes que acompanhavam os teus textos.

Estou de luto.
Não sei mais que dizer porque a sua escrita era um pequeno raiar. Dura e consistente, colorida e amolecida pela vontade de o ser.

Estamos de luto caros escritores. Saiu Cláudia Alves, a menina-moça do talento infinito que escreveu inúmeras linhas durante este ano bloguista...Continuaremos a ver-nos por aí, e continuarei a ler-te com toda a vontade...Mas compreende que não te ler aqui, nunca mais será o mesmo mundo que era até agora.

O meu obrigado, porque se tenho um dom como dizes, foi pela tua iniciativa que ele se espalhou.

O meu sincero Obrigado.
Eduardo Coreixo, o admirador e inútil amigo.

De que cor é o teu céu?

O meu céu anda cinzento.

Tenho cinquenta imagens a preto e branco que procurei para colocar por aqui. Não tenho uso para elas, embora as ideias fossem muitas. Há que entender que os pensamentos estão constantemente a perderem-se nesta coisa da vida.
Tenho uma estrada que, por enquanto, me foi fechada ou não me é a mais benigna. Não tenho pés não cansados. Tenho uma mala que nunca tive forças para segurar e se não é agora, é quando eu não quero. Cansada, ada, íssima... sempre.

Não peço que entendam, mas dava jeito. Preciso de cores, vou viajar por uns tempos.

Não me posso despedir de todos da mesma maneira. Poder até posso, mas não quero ser ingrata. Nem poética, nunca estive aqui para isso, por isso:
Eduardo, obrigada por esta viagem linda que tem sido feita ao ler-te e ao me dar a ler. Hoje acredito que me conheces tão bem que não me sei despedir de maneira bonita. E tens um Dom, quer queiras , quer não. Continuarei a estar por cá.

Cerberus e Ciocarlia: Se acreditasse no acaso, hoje era só a ele a quem batia palmas, por vos ter posto no meu caminho, neste quente do meu antigo e futuro abrigo. Mais uma vez, obrigada, Eduardo. Dois casos de talento puro.

Andreia e Joana: Gostava de vos ter lido mais vezes. Gosto muito da vossa escrita, mas a sua escassez ainda não me permitiu conhecer-vos. Se é que se conhece alguém pela escrita. Mas eu continuarei a estar por cá.

Estou pequenina com cinquenta imagens por publicar. Quarenta e nove, para ser mais exacta. Não peço que entendam, mas dava jeito. Cores que ameaçam rebentar no céu e eu tenho de ir, tenho de ir, porque tenho uma mala que diz que tenho de ir.


Até breve.
Cláudia Alves

quinta-feira, 1 de maio de 2008

As pancadas de Molière


Eu não tenho mais nada do que isto. Sem isto perco-me de vez, não sou mais eu, sou a segunda pele a pisar vitória para sempre sobre a primeira. E perco tudo de rajada, como foi com a casa, como foi com as estrelas, como foi com o veneno na comida do cão ou o cancro a comer-me os restos de família. Os meus primos ciumentos são mais que os pais, sem dúvida, mas perdem-se muito mais coisas na vida do que se ganham. Pelo menos continua a vida cá, mas de resto, perde-se muito mais, vai por mim.

A menina dos prémios infantis foi para casa sem receber o prémio. Disse que enquanto não o merecesse, não queria sequer ouvir a música dos aplausos. O menino maneta prometeu arranjar maneira de tocar piano (encontrou um galho de dedos fininhos, que encaixava miraculosamente na fenda que tinha nos dentes). Um drogado foi à igreja e confessou-se e descobriu que não tinha tantos pecados, quanto isso; saiu mais limpo. Do outro lado da rua, alguém tirou a vida a alguém, para que lhe tirasse as patas de cima. Alguém violentou filhas vinco e cinco vezes anuais, que lhe deram a proeza de se dividir em pai e avô, ao mesmo tempo. Em toda a parte, existem gritos que metem medo, só de ouvir. As únicas pancadas bonitas são as de Molière, as outras todas oferecem sempre mais - mais dó, menos sol. Existem crianças - Crianças - que nunca chegarão a saber o que é isso de ser Criança - saber tudo e depois desaprender, nunca saberão, saberão sempre demais. Depois há missas aos Domingos e lugares no céu.

Eu não tenho nada mais do que isto. Não é para ficar bonito, não é porque quero ser boa em algo, é já não ter mais nada. Eu não quero, eu preciso. Preciso de saber que, se me portar bem e aprender as lições todas, um dia posso ser alguém. Posso conseguir; o menino maneta conseguiu. Mas só quando merecer. Quando merecer, vai ser o dia mais feliz da minha vida.